Enquanto o governo federal montou uma fortaleza para receber a 17ª Cúpula do Brics, com 31 mil agentes mobilizados e caças armados sobrevoando a cidade do Rio, milhões de brasileiros seguem enfrentando a insegurança e a violência crônica que marca o dia a dia nas periferias e centros urbanos do país. Até guarda municipal apareceu para comandar o trânsito, coisa rara de se ver no dia a dia da cidade.

A operação de segurança montada pelo governo federal para o evento — que reúne líderes de 11 países no Museu de Arte Moderna — é digna de um cenário de guerra: caças A-29 Super Tucano com mísseis, radares, equipamentos antidrone, blindados anfíbios e snipers posicionados em pontos estratégicos do Aterro do Flamengo. A Força Aérea Brasileira chegou a interceptar três aeronaves civis que invadiram a zona de exclusão aérea nos últimos dias.
Mas no Brasil, o aparato de guerra é para poucos, apesar da realidade cotidiana de grande parte da população já se assemelhar a um cenário de guerra não declarada. Em diversas regiões — especialmente nas periferias urbanas e áreas dominadas por facções criminosas — os tiroteios frequentes, o domínio territorial por grupos armados e o medo constante transformaram a vida dos moradores em uma rotina de sobrevivência.
Com mais de 38 mil homicídios registrados apenas em 2024, o número de mortes violentas no país supera o de muitos conflitos armados ao redor do mundo. Mesmo assim, a sensação de abandono é reforçada por uma política nacional que estimula o desencarceramento, alimentando a impunidade e a reincidência criminal.
A indignação cresce nas redes sociais e nas ruas: por que o Estado só demonstra plena capacidade de ação quando se trata de proteger chefes de Estado estrangeiros? Por que a mesma eficiência não se aplica ao combate ao crime organizado ou à proteção de comunidades vulneráveis?
Enquanto o Rio vive dias de exceção: feriados decretados, aeroportos fechados, ruas interditadas e um aparato de guerra para proteger os poderosos, para o cidadão comum, resta a pergunta incômoda: se pode ser seguro por dois dias, por que não pode ser todos os dias?
