Pets no orçamento: Lula culpa animais por pobreza, mas setor é motor de emprego e renda no Brasil

Jefferson Lemos
Foto - Freepik

Enquanto o presidente aponta gastos com cães como vilões do endividamento e da pobreza o mercado pet movimenta R$ 77 bilhões e desmente tese do Planalto com geração recorde de postos de trabalho

O debate sobre a pobreza e o endividamento das famílias brasileiras ganhou um novo e inusitado capítulo. Em declaração recente, o presidente Lula associou a crise financeira da população aos gastos com animais de estimação, sugerindo que o hábito moderno de investir em ração de qualidade e serviços veterinários — como “dentista para cachorro” — seria um dos responsáveis pelas dívidas dos cidadãos.

A fala, no entanto, ignora um pilar robusto da economia real. Diferente da corrupção ou do descontrole de gastos públicos, o mercado pet brasileiro é hoje o terceiro maior do mundo, movimentando cerca de R$ 77 bilhões anuais, como revela a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet) e do Instituto Pet Brasil. Em vez de drenar a economia, o setor é um dos que mais gera emprego e renda, sustentando desde a indústria de insumos agrícolas para ração até milhares de pequenos pet shops e clínicas veterinárias em cada bairro do país.

Repercussão negativa

A fala de Lula rapidamente repercutiu nas redes sociais e foi alvo de repúdio. Usuários ironizaram a ideia de que “cachorrinhos” seriam responsáveis pela pobreza. A crítica ganhou força online, com internautas acusando o presidente de desviar o foco dos problemas estruturais da economia e da corrupção para responsabilizar hábitos cotidianos das famílias.

Especialistas em economia doméstica também apontam uma contradição na narrativa oficial. Enquanto o governo mira nos pets, os verdadeiros “ralos” do orçamento tem sido a corrupção, o endividamento público e as apostas online (bets), regulamentadas pela atual gestão para fins de arrecadação.

Diferente do gasto com um animal de estimação — que retorna para a sociedade em forma de serviços, comércio e impostos sobre produtos tangíveis —, o dinheiro das apostas é um consumo de capital sem retorno produtivo, que tem causado um colapso silencioso nas finanças das classes C e D.

O Novo Cenário de 2026

No cenário político, a polêmica une o útil ao eleitoral. Com as eleições de 2026 no horizonte, a oposição encontrou na “fala dos pets” o gancho perfeito para dialogar com a classe média e os protetores de animais, contrastando a visão de Lula com a defesa de um setor que, longe de ser um problema, é uma das poucas ilhas de crescimento econômico constante no Brasil atual.

Entenda o caso

Em discurso na fábrica da Hyundai em Anápolis (GO), no último dia 26, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que os gastos com animais de estimação representam um verdadeiro “sequestro dos salários” dos trabalhadores. Segundo ele, os brasileiros estão se endividando porque passaram a gastar demais com “cachorrinhos” — levando-os ao dentista, ao veterinário, dando banhos semanais e até permitindo que durmam na cama.

Lula ironizou que, no passado, bastava dar restos de comida ao cachorro, mas hoje os animais exigem cuidados sofisticados. Para o presidente, esse novo padrão de consumo é um dos fatores que explicam o endividamento das famílias. Ele chegou a comparar com a China, dizendo que lá “não devem ter esse problema”, em referência ao fato de que em algumas regiões chinesas ainda existe o consumo de carne de cachorro.

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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
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