‘LULA, O ESQUECIDO’: O QUE NÃO FOI DITO NO RIO – análise de Fernando Fernandes

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O presidente da República veio ao Rio de Janeiro e fez o que costuma fazer bem em ano eleitoral: escolheu um inimigo, montou uma cena e entregou à plateia uma frase de efeito. Cobrou do governador em exercício que prendesse “ladrões” e “milicianos que comandaram o estado”. Até aí, quase nada a opor. Ladrões e milicianos devem mesmo ser presos. O problema está no silêncio.

Até o momento, os deputados e ex-deputados estaduais que enfrentam prisões e investigações no Rio estão sendo acusados de ligação com o Comando Vermelho, não com milícia. Então, por que Lula não mencionou o Comando Vermelho? Por que não cobrou, com a mesma indignação pública, a prisão das lideranças da facção que há décadas sequestram territórios e desafiam o Estado? A escolha de atacar milicianos quando as acusações reais envolvem o CV não é acidente. Existe método político nessa loucura.

A lembrança da megaoperação no Complexo do Alemão torna o silêncio ainda mais ensurdecedor. Quando a ação mirou o Comando Vermelho, setores da esquerda, movimentos sociais, organizações de direitos humanos e integrantes da base governista falaram em “chacina” e “massacre”. Não houve, da parte de Lula, o mesmo vigor retórico que agora apareceu contra “milicianos”. A seletividade revela onde dói: há facções que rendem discurso e há facções que convém não nomear.

Ora, presidente, no Rio de Janeiro, o crime organizado não tem uma única sigla, uma única geografia nem uma única conveniência ideológica. Milícia, tráfico, corrupção e facção precisam ser enfrentados com o mesmo rigor. E, em matéria de segurança pública, os silêncios dizem muito mais do que os discursos. A fanfarronice presidencial toca no medo real das pessoas e isso não pode ser visto como apenas discurso. A bravata normalmente acaba por custar a vida de inocentes.

 

* Fernando Fernandes é Doutorando em Direito Público pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e mestre em Filosofia Política pela UERJ.

 

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