O mundo voltou os olhos para a África do Sul no dia 30 de junho. Movimentos nacionalistas e grupos de autodefesa convocaram protestos em várias cidades do país e deram um ultimato para que estrangeiros em situação irregular deixassem o território sul-africano. Em locais como Joanesburgo, Durban e Pretória, escolas fecharam, comércios baixaram as portas e milhares de pessoas passaram o dia com medo de novos episódios de violência.
O clima de tensão não surgiu do nada. Nas últimas semanas, ataques contra imigrantes, saques, intimidações e destruição de propriedades levaram mais de 25 mil estrangeiros a deixar suas casas ou buscar repatriação para países como Zimbábue, Moçambique, Malawi e Nigéria. Governos da região iniciaram operações para retirar seus cidadãos diante da escalada da violência.
A África do Sul enfrenta uma grave crise econômica. O desemprego permanece na casa dos 33%, enquanto serviços públicos sofrem com anos de corrupção e má gestão. Nesse cenário, grupos como o Operation Dudula e o March and March passaram a apontar os imigrantes africanos como responsáveis pela falta de empregos, pela criminalidade e pelo colapso dos serviços públicos.
Agora imagine a cena invertida. Se grupos organizados em Paris, Berlim ou Londres estabelecessem um prazo para que estrangeiros deixassem o país e saíssem às ruas exigindo expulsões em massa, dificilmente o episódio seria tratado apenas como um protesto contra a imigração. Muito provavelmente seria classificado como um movimento de extrema direita ou de caráter xenófobo, provocando forte repercussão internacional, manifestações de autoridades, campanhas nas redes sociais e ampla cobertura da imprensa mundial.
É justamente essa diferença de reação que desperta o debate. Quando a indignação internacional parece variar conforme quem são as vítimas ou os agressores, abre-se espaço para uma discussão incômoda sobre a coerência do discurso global em defesa da dignidade humana.
