Enquanto Lula ataca Trump, tarifaço da China faz estrago bilionário no Brasil

Jefferson Lemos
Foto - Ricardo Stuckert/PR

Enquanto os tarifaços de Donald Trump monopolizavam o noticiário brasileiro e mobilizavam críticas nas redes sociais da militância de esquerda e do próprio presidente Lula, a China aplicava uma barreira comercial semelhante que recebeu muito pouca atenção no debate público. Desde janeiro, Pequim passou a cobrar uma sobretaxa de 55% sobre a carne bovina brasileira que ultrapassar a cota anual de exportação. Agora, a conta começa a chegar: frigoríficos entram em férias coletivas, linhas de produção são reduzidas, empregos estão ameaçados e o prejuízo para o Brasil pode alcançar R$ 16,5 bilhões.

A medida foi anunciada oficialmente pelo governo chinês no fim de 2025 para proteger seus pecuaristas — a mesma lógica protecionista adotada pelos Estados Unidos. A diferença foi a repercussão. Enquanto as tarifas americanas dominaram o debate político e as redes sociais, a decisão chinesa teve impacto muito menor no noticiário e gerou poucas manifestações públicas de lideranças alinhadas ao governo, apesar dos alertas feitos ainda no início do ano por representantes do setor produtivo e por políticos conservadores.

O problema é que a cota destinada pela China ao Brasil ficou muito abaixo do volume que o país já exportava. Em 2025, foram embarcadas cerca de 1,68 milhão de toneladas de carne bovina para o mercado chinês. Agora, apenas 1,106 milhão de toneladas escapam da sobretaxa. Segundo a StoneX, 98,5% desse limite já haviam sido utilizados até o fim de junho, e a expectativa é que a cota seja esgotada em agosto. Depois disso, a tarifa total sobe para 67%, tornando praticamente inviáveis novos embarques para o principal comprador da carne brasileira.

Os efeitos já atingem o país. Frigoríficos concederam férias coletivas, reduziram turnos e desaceleraram a produção. A Abiec estima uma queda de até 10% nas exportações, com perdas de até US$ 3 bilhões — cerca de R$ 16,5 bilhões. O impacto vai muito além do agronegócio: ameaça empregos, reduz a entrada de divisas, afeta a balança comercial, diminui a arrecadação de impostos e enfraquece uma das cadeias mais importantes da economia brasileira.

Enquanto o tema permanecia em segundo plano, lideranças do agronegócio e políticos conservadores insistiam nos alertas. O governador Ronaldo Caiado criticou a condução da política externa do governo federal, que chamou de ideológica, e afirmou que o Brasil sofre pressão comercial simultânea da China, dos Estados Unidos e da União Europeia. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) também cobra, desde o anúncio da medida, uma reação mais firme dos ministérios da Agricultura e da Fazenda. O governo, por sua vez, afirma que negocia uma ampliação da cota para 2027, mas, até lá, o tarifaço chinês continuará cobrando uma conta bilionária do Brasil.

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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
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