Como deve ter ‘falso democrata’ aplaudindo o ditador da Nicarágua

Jefferson Lemos
Foto - IA

A confirmação de que o regime de Daniel Ortega iniciou os trâmites para acabar formalmente com o processo eleitoral na Nicarágua colocou fim a qualquer dúvida razoável, se é que alguém ainda tinha alguma: o país é uma ditadura declarada. No entanto, o aspecto mais revelador desse processo não é apenas a brutalidade do regime em Manágua, mas o silêncio e as acrobacias retóricas de setores da política brasileira que preferem ignorar a realidade a admitir a ruína moral de seus aliados históricos.

Para quem passa o ano proferindo discursos em defesa da democracia, a consolidação da autocracia de Ortega criou um constrangimento insustentável, e não é de hoje. A pergunta que fica é: como conciliar a bandeira do “amor à democracia” com a complacência diante de um ditador que prende opositores, expulsa bispos e fecha jornais?

A relação de proximidade entre setores da política brasileira e a Frente Sandinista de Libertação Nacional remonta aos anos 1980, fortalecida na década de 1990 com a criação de fóruns políticos regionais como o Foro de São Paulo. Esse vínculo histórico acabou pesando no momento em que a postura cobrava firmeza institucional.

Quando a ditadura da Nicarágua passou a perseguir a Igreja Católica, cassar a nacionalidade de críticos e banir partidos de oposição, a reação inicial do governo brasileiro não foi a indignação imediata, mas o apaziguamento.

Chegou-se ao ponto de o Brasil recusar a assinatura de declarações no Conselho de Direitos Humanos da ONU que condenavam as violações do regime. Enquanto dirigentes do partido tentavam suavizar a imagem da Nicarágua sob o pretexto de manter uma “diplomacia discreta”, o regime nicaraguense avançava contra os direitos fundamentais. A estratégia do diálogo suave ruiu de forma humilhante quando o próprio embaixador brasileiro acabou expulso do país pelo regime que se tentava preservar de críticas.

A seletividade democrática

A seletividade é o sintoma mais claro do falso democratismo. O critério para condenar um ato autoritário não pode ser quem o comete, mas a natureza do ato em si. Quando a violação de direitos ocorre sob a bandeira de um espectro político rival, a condenação vem em tom inflamado. Quando ocorre sob a bandeira de um grupo com o qual compartilha histórico ou afinidade doutrinária, a régua muda: surgem as justificativas contextuais, o silêncio obsequioso ou as notas neutras de rodapé.

Essa postura transforma a pauta democrática em mero instrumento de propaganda partidária. Se o conceito de democracia só vale para combater os adversários e é relativizado para proteger companheiros de viagem, não se trata de compromisso com a liberdade, mas de conveniência política.

Daniel Ortega não se tornou um autocrata do dia para a noite. O desmantelamento das instituições na Nicarágua foi um processo gradual, construído sob o olhar condescendente de autoridades e de setores alinhados que preferiram fechar os olhos enquanto a oposição era varrida do mapa. Que pelo menos isto sirva de lição.

 

  • Jefferson Lemos é jornalista e comentarista político

 

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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
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