Fim da 6×1 a um mês da eleição: direito do trabalhador ou bandeira eleitoreira?

Jefferson Lemos
Foto - Reprodução

Acabar com a escala 6×1 pode ser uma boa discussão. Transformá-la em bandeira eleitoral, no mês da eleição, é outra história.

A proposta que acaba com a 6×1 e reduz a jornada para 40 horas semanais está pronta para avançar no Senado justamente no último esforço concentrado do Congresso antes das eleições de 4 de outubro.

Coincidência? Pode até ser. Mas fica difícil ignorar o calendário.

Ainda mais porque parlamentares já começaram a transformar a aprovação da medida em peça de campanha. Tem até jingle eleitoral com o “fim da 6×1”.

E é aí que mora o problema.

O mundo do trabalho está mudando numa velocidade brutal. A inteligência artificial já está mexendo com profissões, empresas e empregos. Guerras bagunçam energia, inflação e cadeias de produção. Eventos climáticos aumentam a instabilidade. E o Brasil continua carregando seus velhos problemas: baixa produtividade, contas públicas pressionadas e uma economia que ainda precisa gerar emprego.

Nesse cenário, uma mudança desse tamanho não pode ser tratada como simples slogan.

Quer reduzir a jornada? Então vamos discutir também quanto custa contratar um trabalhador no Brasil.

A CNI estima que o fim da 6×1 e a mudança para 40 horas possam elevar em até 9,1% o custo de algumas empresas, com impacto de até R$ 267 bilhões por ano sobre o custo do trabalho formal.

E aqui aparece uma pergunta incômoda: por que não discutir, junto com a redução da jornada, a redução dos impostos e encargos que pesam sobre a folha?

Porque a conta não desaparece.

Se o custo para manter uma equipe aumenta, a empresa pode reduzir margem, contratar menos, investir mais em automação e ainda repassar parte desse aumento para os preços. Não é uma consequência automática, mas é um risco econômico que precisa entrar na conta.

E, no fim da linha, pode sobrar para o próprio trabalhador e o consumidor.

A medida criada para melhorar a vida do trabalhador pode acabar ameaçando empregos e encarecendo aquilo que ele compra todos os dias: comida, restaurante, serviços, comércio e outros produtos.

E o brasileiro já paga impostos demais.

A carga tributária chegou a 32,4% do PIB em 2025, segundo o Tesouro Nacional.

Então por que existe tanta disposição para aumentar o custo de quem emprega e tão pouca para discutir o custo do próprio Estado?

Se há espaço para trabalhar menos, ótimo. Mas que se discuta o pacote inteiro: menos impostos sobre a folha, mais produtividade, estímulo à contratação, modernização das relações de trabalho e responsabilidade fiscal.

Porque não existe almoço grátis.

Quando a conta não aparece no contracheque, pode aparecer na etiqueta.

O trabalhador merece mais descanso e qualidade de vida. Mas também merece emprego, salário e poder de compra.

Por isso, discutir o fim da 6×1 é legítimo. Transformar uma mudança estrutural no mercado de trabalho em troféu eleitoral, sem apresentar a conta completa, é outra coisa.

Depois que a eleição passa, o jingle acaba.

A conta fica.

 

  • Jefferson Lemos é jornalista e comentarista político
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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
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