Dizem que o crime organizado manda no Rio. Essa narrativa é conveniente para muita gente. Mas, quando o assunto é estrutura, dinheiro e infiltração no poder público, talvez seja melhor olhar para São Paulo. E olhar para São Paulo mesmo, afinal, não há nenhuma notícia de que empresas de ônibus no Rio sejam comandada pelo tráfico ou pela milícia.
A Operação Vectura Corrupta, deflagrada nesta quinta-feira (17), escancarou uma investigação que vai muito além de criminosos escondidos em comunidades.
O Ministério Público de São Paulo aponta que o PCC teria colocado representantes ou laranjas no comando de 12 das 22 empresas de ônibus que operam na capital paulista. As empresas, segundo a investigação, seriam usadas como fachada para movimentar dinheiro ilícito e realizar negócios da organização criminosa.
E o caso chegou ao coração da política paulistana.
Entre os alvos está Milton Leite (União Brasil), ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo por seis vezes e vereador por 27 anos. Segundo a investigação, ele é citado como responsável direto pela operação de empresas que estariam sob controle do PCC. O MP também aponta que ele seria o “dono de fato” da Transwolff, acusação que o político nega.
Outro alvo é Levi de Oliveira, ex-presidente da SPTrans. Segundo o MP, ele teria tratado de interesses do PCC relacionados às empresas de transporte.
A operação cumpre mandados de prisão e de busca e apreensão e é resultado de uma investigação que também apura infiltração da facção em eleições e relações com agentes públicos.
Milton Leite nega as acusações e afirma que é inocente. Disse ainda que pretende se apresentar às autoridades.
O ponto que incomoda
Durante anos, tornou-se quase automática a associação entre Rio de Janeiro e crime organizado.
E ninguém está dizendo que o Rio não tenha um problema gravíssimo com facções, milícias, armas e territórios dominados.
Mas reduzir o fenômeno do crime organizado brasileiro ao Rio pode esconder uma realidade muito mais ampla.
Em São Paulo, a investigação agora aponta para algo diferente de uma disputa territorial visível nas ruas: uma organização criminosa infiltrada em negócios bilionários, empresas de ônibus, relações políticas e estruturas do poder público.
Não é apenas sobre quem controla uma esquina.
É sobre quem consegue entrar no sistema.
E talvez essa seja a parte mais incômoda da história.
Porque, se a pergunta é onde o crime organizado é forte no Brasil, a resposta não pode ser construída apenas olhando para os morros do Rio.
É preciso olhar também para os contratos, as empresas, o dinheiro, a política e os gabinetes.
E, nesta quinta-feira, São Paulo está dando um motivo enorme para que o país olhe para lá.
