Se Dias Gomes estivesse vivo, talvez nem precisasse escrever uma nova novela das oito. Bastaria abrir a página 33 do Diário Oficial de Armação dos Búzios do dia 17 de setembro de 2026.
A Prefeitura de Búzios convocou familiares de 32 pessoas sepultadas no Cemitério de Sant’Anna para comparecer às pressas à administração e providenciar a exumação dos restos mortais. O prazo é de apenas 10 dias úteis.
O motivo? Falta de espaço.
Enquanto a Prefeitura enfrenta há anos uma novela para viabilizar o novo cemitério da Baía Formosa, que gerou problemas ambientais, ação do Ministério Público e até discussão envolvendo pau-brasil, a vida real não esperou. As pessoas continuaram morrendo.
E agora o velho Cemitério de Sant’Anna chegou ao limite.
Foi aí que Búzios acabou criando sua própria versão de Sucupira — só que às avessas.
Na clássica novela da Globo, o hilário prefeito Odorico Paraguaçu tinha uma obsessão: inaugurar o cemitério municipal de Sucupira. O problema dele? Ninguém morria na cidade para estrear a obra. Ele tentava de tudo, importava moribundo, mas o pé-frio do homem era tão grande que a população parecia ter descoberto a fórmula da imortalidade.
Em Búzios, para abrir vaga para quem está chegando na fila do descanso eterno, o jeito foi dar uma “ordem de despejo” para quem já estava lá, descansando em paz (ou achando que estava).
A ironia é trágica, mas o tom das conversas nos calçadões e grupos de WhatsApp da cidade oscila entre a indignação e o deboche. Afinal, viramos uma Sucupira invertida: a cidade onde morrer virou um problema logístico de alta gravidade.
A pergunta que fica no ar é uma só: será que agora, com o fantasma da exumação em massa batendo na porta de 32 famílias, a novela da obra do novo cemitério finalmente ganha um capítulo final, ou vamos precisar que o Odorico Paraguaçu baixe na cidade para resolver o problema?
A conferir as cenas dos próximos capítulos: com a palavra, a prefeitura. Para o pronunciamento oficial, aqui não falta espaço.
