Tem frases que passam. E tem frases que pedem para ser lembradas.
Nesta quinta-feira (24), no Rio, Lula conseguiu juntar duas coisas que, colocadas lado a lado, dão muito o que falar.
Ao elogiar o governador interino Ricardo Couto, Lula resolveu lembrar o histórico do Rio.
“Como aqui já foram presos seis governadores, ele assumiu interinamente”, disse o presidente.
E quem estava na plateia?
Luiz Fernando Pezão.
Ex-governador do Rio. Preso em 2018, ainda durante o mandato.
Pezão não aplaudiu. Ficou olhando para baixo e mexendo no celular enquanto Lula falava sobre as prisões.
A cena já seria suficiente.
Mas ainda tem mais.
Pezão foi vice e sucessor de Sérgio Cabral, um dos principais aliados políticos de Lula no Rio.
Cabral também foi preso.
Até aí, poderia ser apenas uma lembrança amarga da história do Rio.
Ou uma falta de memória conveniente.
Só que Lula resolveu dar mais um passo.
E soltou a frase que provavelmente vai sobreviver à cerimônia:
“O Rio de Janeiro hoje está de parabéns porque tem um governador que não foi eleito.”
Isso mesmo.
Não foi eleito. Não recebeu voto para governar o estado.
Couto assumiu interinamente depois de presidir o Tribunal de Justiça do Rio. A situação é prevista pelas regras institucionais e pelas decisões judiciais que envolvem a sucessão.
Até aí, tudo dentro do jogo.
O problema é outro: transformar a ausência de voto em motivo de comemoração.
Ainda mais para um presidente que costuma colocar a defesa da democracia e das urnas no centro do discurso.
Lula poderia simplesmente dizer que Couto está fazendo uma boa gestão.
Mas escolheu comemorar o fato de ele não ter sido eleito.
É difícil não perguntar:
desde quando a ausência do voto virou motivo de orgulho?
A democracia ficou onde?
O eleitor vota.
Escolhe.
Erra.
Acerta.
Troca.
É assim que funciona.
Ou que, pelo menos, deveria funcionar.
