Quando a coisa aperta de todos os lados, não tem erro: criar uma nova polêmica é a receita clássica para mudar a conversa no botequim, nos grupos de WhatsApp e na televisão. Essa barulheira toda em volta de Nossa Senhora Aparecida tem a cara de um plano muito bem pensado para jogar fumaça nos olhos do eleitor. Enquanto o povo se desgasta e briga por causa de religião, o governo respira aliviado e esconde debaixo do tapete uma montanha de problemas e escândalos.
A jogada é esperta. Em vez de dar explicações difíceis sobre as contas públicas e os escândalos do governo, o presidente Lula assumiu o papel de vítima e grande protetor da fé. E o resultado deu certo: a cobrança em cima do governo evaporou, dando lugar a uma discussão moral que não resolve a vida de ninguém.
A vontade de manter essa conversa acesa ficou clara no meio de uma entrevista na Band. Mesmo com o boato já desmentido de ponta a ponta, Lula bateu no peito e insistiu no assunto para atacar seu principal adversário. “Mas foi uma fake news, né, presidente?”, rebateu a jornalista. Mas, pouco importa, desde que a polêmica continue rendendo assunto e desviando o foco.
O que eles não querem que você comente
Enquanto a discussão sobre a santa toma conta do país, ninguém fala sobre o que realmente dói no bolso do trabalhador:
- A fraude no INSS e as contas públicas no vermelho: rombos bilionários que colocam em risco o futuro das aposentadorias e da economia.
- O escândalo do Banco Master e Daniel Vorcaro: rolos financeiros gigantes que cobram respostas sérias.]
- As citações a Lulinha: denúncias e suspeitas que envolvem a família do presidente.
- A briga no STF: o quebra-pau entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça.
Levantamentos da organização *Democracia em Xeque* mostram bem isso: o rolo da padroeira só perdeu em repercussão para o próprio embate entre os ministros do STF e o caso do Banco Master.
No jogo do interesse, a fé mexeu mais com a cabeça das pessoas do que os rombos nas contas do país.
‘Cartilha, medalha e paz do Senhor’
E tem mais. Para completar o teatro e faturar no voto, a campanha do PT colocou o bloco na rua com o “Guia da Conversa” — um manual de 19 páginas para ensinar os militantes a dobrarem os eleitores indecisos usando a religião. O texto diz com todas as letras: *”Lula é católico e sempre guiado por valores cristãos de amor ao próximo”*.
E o marketing apelou para todos os lados:
- Para os católicos: a primeira-dama Janja apareceu em evento oficial ostentando uma medalha de Nossa Senhora e tratou de espalhar foto do marido com a padroeira na internet.
- Para os evangélicos: a mensagem já começa na linguagem: “Paz do Senhor, igreja! Lembrem-se: pregar a verdade é libertar os cativos!”.
No fim das contas, a estratégia cumpriu o objetivo. O governo conseguiu trocar a cobrança por austeridade e por combate à corrupção por uma guerra religiosa. No final, não teve milagre nenhum: foram só fake news e cortina de fumaça para o político faturar a atenção enquanto o cidadão continua sem as respostas que precisa.
