Fala sobre meninas ‘tomando toque’ e veto que beneficia abusadores encurralam Lula na reta final

Jefferson Lemos
Foto - Reprodução

A reta final da campanha presidencial virou um verdadeiro campo de guerra nas redes sociais, e o Palácio do Planalto ligou o sinal de alerta máximo. Depois de tentar surfar na polêmica envolvendo a imagem de Nossa Senhora Aparecida para desgastar a oposição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva viu o feitiço virar contra o feiticeiro com um contra-ataque avassalador liderado pelo deputado federal Nikolas Ferreira.

O deputado do PL colocou a internet abaixo ao resgatar e detonar uma declaração controversa de Lula dada durante um comício em Belém (PA). Na ocasião, ao falar sobre a resistência dos homens ao exame de próstata, Lula disparou: “As mulheres aprendem a tomar toque desde quando é pequena. O homem, não”.

O grande problema para a campanha do PT é que o escândalo da frase “tomar toque” não surge no vácuo. A oposição reabriu uma ferida recente que o governo tentava esconder: o polêmico veto de Lula ao Cadastro Nacional de Pedófilos.

O vídeo que explodiu as redes sociais

Embora a campanha governista corra para explicar que a fala de Lula era uma comparação sobre hábitos de exames preventivos de saúde, a oposição não perdoou a formulação usada pelo presidente.
Nikolas Ferreira publicou um vídeo cirúrgico e com altíssimo poder de compartilhamento, exibindo um cartaz e afirmando categoricamente que “meninas não são tocadas desde cedo”.

O parlamentar questionou a dubiedade da frase e o perigo de uma declaração como essa ser usada por criminosos para normalizar o contato físico abusivo com crianças. Em poucas horas, o conteúdo virou o assunto mais comentado do país, acumulando milhões de visualizações e gerando revolta entre pais e mães de família.

O fantasma do veto polêmico volta a assombrar

Em novembro de 2024, Lula sancionou a criação do cadastro público de criminosos sexuais, mas barrou o trecho que mantinha os nomes e CPFs expostos por 10 anos após o cumprimento integral da pena, citando princípios constitucionais ligados à reabilitação e à reinserção do condenado. O eleitorado conservador e religioso leu a medida como uma proteção excessiva a criminosos, enquanto as vítimas carregam o trauma por toda a vida.

Agora, a oposição costurou as duas narrativas de forma explosiva nas redes sociais: o governo que vetou a exposição prolongada de abusadores na internet é o mesmo cujo líder diz publicamente que meninas se acostumam com “toque” desde a infância.

Campanha de Lula tenta conter o ‘desastre’

O bombardeio digital foi tão severo que a coligação de Lula acionou às pressas o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para tentar derrubar os vídeos de Nikolas Ferreira, alegando que a fala foi tirada de contexto para associar o presidente à pedofilia. Lula chegou a chamar o deputado de “canalha” em resposta à repercussão.

Porém, no tribunal da internet, o estrago já está feito.

O episódio neutralizou completamente a ofensiva do PT sobre o eleitorado católico e pode provocar uma debandada de eleitores indecisos e moderados bem na hora de abrir as urnas.

Se a ideia do governo era emparedar a oposição com a pauta religiosa, o troco da direita veio no ponto mais sensível de qualquer campanha: a proteção da infância e a segurança das famílias brasileiras.

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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
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