Se você assistiu à sabatina de ontem na TV Globo, talvez tenha ficado com a mesma dúvida que tomou conta das redes sociais: qual Lula estava ali no estúdio com a Renata Lo Prete? O militante de sempre ou o presidente candidato que tenta desapegar do próprio governo para salvar a eleição?
A verdade que a telinha escancarou na reta final do segundo turno é que Lula Candidato e Lula Presidente viraram duas pessoas completamente diferentes. Ou melhor: duas caras da mesma moeda.
Do ‘desencarceramento’ ao discurso do punho duro
A virada de casaca mais inacreditável da noite veio na área da segurança pública — justo no momento em que a violência virou a principal dor de cabeça do brasileiro e o crime organizado dominou o país, transformando cidades do Nordeste nas mais violentas do Brasil.
Num passe de mágica, o mesmo Lula que passou a vida criticando penas mais duras apareceu em rede nacional defensor da redução da maioridade penal para crimes hediondos. Aliás, vale lembrar o vexame de bastidor: para tentar estancar a sangria eleitoral, o governo tentou rodar às pressas uma PEC da Segurança sem incluir a redução a maioridade penal e coube a oposição fazê-lo. Lula só esqueceu de combinar com a própria base, que travou o projeto e fez a proposta ser retirada de pauta pouco antes do debate justamente porque passou a dar cadeia para menor criminoso.
E a contradição não para por aí. Lula encheu o peito para prometer a construção de 138 presídios. Vindo de um governo que sempre hasteou a bandeira da política de desencarceramento? Não custa lembrar que foi o seu próprio Ministro da Justiça quem criou a famigerada audiência de custódia, o maior símbolo do “prende de manhã e solta à tarde” que alimenta a sensação de impunidade no país.
Pra fechar o pacote da segurança: Lula cobra mais presença federal no combate às facções, mas lá atrás rodou a baiana contra taxar o Comando Vermelho (CV) e o PCC como grupos terroristas. Sem falar na saia justa com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues: o presidente o criticou publicamente por participar de festa ligada ao Vorcaro do Banco Master, não deu garantias de permanência no cargo, mas também não demite. Fica a pergunta: por que mantém no cargo se não confia?
‘Eu não sabia’: incompetência ou cara de pau?
Se no crime o discurso mudou, na gestão o teatro foi ainda mais surreal. Questionado sobre o congelamento do Bolsa Família ao longo do mandato, Lula soltou essa pérola:
“É inexplicável que no governo do Lula alguém pense em não reajustar.”
Alguém realmente acredita que o Presidente da República passou quatro anos sem saber que o principal programa social do seu governo estava sem reajuste, “descobrindo” a falha milagrosamente só às vésperas do segundo turno?
A conta que não fecha (e a culpa que é do outro)
Lula bateu no peito para garantir que jamais adotaria medidas econômicas para prejudicar a população de baixa renda. Engraçado… o povo da periferia que o diga ao tomar na cabeça a “Taxa das Blusinhas”, criada sem dó nem piedade no seu próprio governo e também, extinta às vésperas das eleições.
Lula ainda prometeu equilibrar as contas públicas pelo crescimento, mas o retrato da realidade mostra que a economia estagnou e a dívida pública explodiu. E qual é a saída do presidente quando os números não fecham? Jogar a culpa de todo o seu desgoverno no antecessor.
Lula foi à TV Globo para tentar convencer o eleitor de que tem o controle do país. Mas o que entregou foi um espetáculo de contradições, recuos de última hora e frases que desafiam o bom senso. Resta saber se, no dia da votação, o brasileiro vai comprar a versão maquiada de campanha ou lembrar do governo que viveu na pele.
