‘Faltou o carro da Odebrecht e do Sítio de Atibaia no desfile do Lula’: oposição ironiza e acusa presidente de transformar carnaval em comício

Jefferson Lemos
Desfile da Acadêmicos de Niterói homenageou o presidente Lula • Alex Ferro / Riotour

Se depender da oposição, o desfile da Acadêmicos de Niterói, que abriu o Grupo Especial do Carnaval carioca neste domingo (15) não foi carnaval: foi menos samba e mais comício – um crime eleitoral em plena avenida. Foram pelo menos 10 iniciativas na Justiça contestando o desfile ou exigindo que a escola devolvesse os recursos públicos que foram repassados.

A homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) virou munição para a oposição, que enxergou propaganda eleitoral antecipada financiada com dinheiro público — e reagiu como se a avenida fosse uma CPI.

O senador Flávio Bolsonaro (PL), que se consolida com principal adversário político de Lula nas urnas, ironizou o desfile postando em suas redes sociais uma versão alternativa feita por IA, mostrando um enredo de gastos públicos, má gestão e escândalos de corrupção que ocorreram no governo Lula, como o sucateamento dos Correios e a fraude do INSS, que não foram levados para a Sapucaí pela agremiação de Niterói.

“Diferente do desfile eleitoral do Lula, esse vídeo não usou dinheiro dos impostos”, ironizou Flávio Bolsonaro na postagem.

O senador Sérgio Moro também foi duro em suas redes sociais: “Faltou o carro da Odebrecht e do Sítio de Atibaia no desfile do Lula. Foi um deprimente espetáculo de abuso do poder, com enaltecimento de Lula, sem escândalos de corrupção, e com ataques aos adversários, tudo financiado pelo Governo. A Coréia do Norte não faria melhor”.

Michelle Bolsonaro aproveitou para lembrar que “quem foi preso por corrupção foi Lula”, como se fosse a narradora oficial da comissão de frente.
Romeu Zema classificou o desfile como “constrangedor e inacreditável” e também prometeu levar o caso à Justiça. Nikolas Ferreira foi além: disse que, se fosse em 2022, já teria busca e apreensão no barracão e inelegibilidade vitalícia decretada.

O enredo que virou polêmica

Sob o título “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a escola encenou a vida do presidente desde Garanhuns até o Planalto. Teve Temer “roubando” a faixa de Dilma e Bolsonaro retratado como o palhaço Bozo. Para a oposição foi propaganda eleitoral descarada com direito a jingle de campanha. Afinal, a Lei Eleitoral proíbe a propaganda de candidatos antes do dia 16 de agosto.

Apuração em ritmo de samba

O Partido Novo correu ao TSE para barrar o desfile, mas a Justiça alegou que impedir o espetáculo seria censura prévia. Ainda assim, o tribunal deixou claro: se virar campanha antecipada, a conta chega depois. A presidente do TSE, Cármen Lúcia, resumiu: há “risco concreto” de ilícito eleitoral.

Dinheiro público na avenida

A revelação de que a escola recebeu R$ 4 milhões da Prefeitura de Niterói, comandada pelo aliado político Rodrigo Neves (PDT) e R$ 1 milhão da Embratur incendiou ainda mais a polêmica. Para a oposição, foi o ápice do “abuso de poder”. Para o governo, apenas apoio cultural recorrente, sem relação com enredos.

No fim, a Sapucaí virou palco de um enredo paralelo: Lula sambando em sua própria biografia, oposição denunciando um “comício fantasiado de carnaval” e o TSE lembrando que, no Brasil, até o samba precisa respeitar a lei eleitoral. Desfile ou propaganda? Resta aguardar o resultado da apuração da Justiça Eleitoral.

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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
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