Prestes a deixar a Prefeitura do Rio para tentar o Palácio Guanabara, Eduardo Paes (PSD) resolveu apostar em uma fórmula que, se não garante a cura de todos os males, certamente atrai holofotes: a distribuição gratuita de Ozempic na rede municipal. O anúncio, feito com o habitual tom debochado do prefeito — que chegou a dizer que “não vai ter mais gordinho no Rio” —, levanta sobrancelhas não apenas pela viabilidade financeira, mas pelo timing cirúrgico.
Paes, que já se declarou um “soldado” do presidente Lula, parece ter ignorado o “general” desta vez. Durante um evento recente em que o prefeito estava presente, Lula não poupou críticas ao uso indiscriminado do medicamento para fins estéticos. “O Ozempic não é um prêmio para quem é relaxado”, disparou o presidente, defendendo que as pessoas deveriam “tirar a bunda da cadeira e andar um pouco” em vez de buscarem soluções mágicas.
Abaixo da superfície do marketing, os dados mostram um cenário preocupante para a saúde pública:
O rombo no orçamento
O Ozempic (semaglutida) tem um custo médio de R$ 1.100,00 por unidade na rede privada. A incorporação dessa tecnologia no SUS foi avaliada pela Conitec com parecer contrário, devido ao impacto financeiro estimado em R$ 6 bilhões em cinco anos para os cofres federais. Em nível municipal, o custo de manutenção de um tratamento contínuo pode drenar recursos de medicamentos básicos que hoje faltam nas Clínicas da Família.
Riscos e efeitos colaterais
Especialistas alertam que o uso sem acompanhamento rigoroso — algo difícil de garantir em uma rede saturada — pode causar náuseas, vômitos, desidratação e até pedra na vesícula devido à perda rápida de peso.
Estudos indicam que a interrupção do tratamento sem mudança de hábito leva ao ganho de peso imediato. Ou seja, a prefeitura pode estar criando uma dependência química e financeira sem fim.
Ao prometer a “caneta emagrecedora” no Super Centro da Zona Oeste, Paes acena para uma classe média ávida por soluções estéticas, enquanto a periferia ainda sofre para conseguir dipirona e atendimento básico. Tratar obesidade é política séria, mas fazer disso uma vitrine de pré-campanha soa mais como uma tentativa de “emagrecer” a rejeição no interior do estado do que, de fato, cuidar da saúde do carioca.
No xadrez político fluminense, Paes joga com as cartas da popularidade. Resta saber se, após as eleições, a conta dessa “receita” não vai sobrar, mais uma vez, para o bolso do contribuinte e para a saúde do cidadão.
