O peso dos juros sobre o bolso dos brasileiros atingiu no governo Lula um marco histórico: pela primeira vez em duas décadas, a fatia da renda destinada ao pagamento de encargos financeiros chegou a 10,4%, segundo dados do Banco Central. Somando o valor destinado ao principal da dívida, o comprometimento da renda das famílias já alcança quase 30% — o maior nível em 20 anos.
Apesar de um cenário macroeconômico aparentemente favorável, com desemprego em baixa e inflação sob controle, especialistas apontam que o quadro esconde fragilidades. “O custo do crédito está mais caro de forma generalizada, o que leva muitas famílias à inadimplência”, alerta Juliana Inhaz, professora de macroeconomia do Insper.
A taxa Selic, mantida em 14,75% ao ano, é apontada como vilã central. Mesmo após cortes recentes, o patamar continua elevado, pressionando financiamentos e empréstimos. O reflexo é direto: a inadimplência dos consumidores saltou para 6,9% em janeiro, contra 5,6% no mesmo período do ano anterior.
Entre os instrumentos de crédito, o cartão se destaca como o maior problema. Os juros rotativos registram inadimplência de 63,5%, seguidos pelo cheque especial (16,5%) e pelo parcelamento no cartão (13%).
O retrato é preocupante: segundo pesquisa da CNC, 80,2% das famílias brasileiras estão endividadas, o maior índice desde o início da série histórica em 2010.
O dado expõe um paradoxo da economia brasileira: crescimento e estabilidade aparente convivem com um risco crescente de colapso financeiro doméstico.
