Conta do governo não fecha e pode acabar no bolso do cidadão

Jefferson Lemos
Foto - IA

As projeções do governo federal para equilibrar as contas públicas, apresentadas no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO), não têm convencido economistas nem o mercado financeiro. Embora o cenário oficial aponte para superávit e crescimento, analistas avaliam que faltam medidas concretas para sustentar as metas — e alertam que, sem ajustes reais, a diferença tende a recair sobre a população.

O plano do governo prevê superávit primário de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e crescimento econômico na casa de 2,5%, com inflação controlada pouco acima de 3%. Para especialistas, o problema não está apenas nos números, mas nas condições necessárias para alcançá-los. O cenário depende de aumento de arrecadação e redução de despesas obrigatórias — medidas que exigem reformas estruturais e enfrentam forte resistência política.

Um dos pontos mais criticados é o uso de mecanismos que melhoram o resultado apenas no papel. Economistas como Felipe Salto, Josué Pellegrini e Daniel Ferraz apontam que parte do superávit projetado depende da exclusão de despesas reais, como precatórios. Considerando esses gastos, o resultado cairia de 0,5% para cerca de 0,05% do PIB — praticamente zerado.

A distância entre o que o governo projeta e o que o mercado acredita reforça a desconfiança. Dados do boletim Focus, do Banco Central, indicam crescimento menor, inflação mais alta — próxima de 3,9% — e até possibilidade de déficit. Para a economista Tatiana Pinheiro, da FGV, as premissas adotadas estão “fora da realidade”, o que compromete a credibilidade da política econômica.

Na avaliação de Zeina Latif, da Gibraltar Consulting, o ajuste necessário para estabilizar a dívida pública exigiria reformas profundas, inclusive com mudanças constitucionais — algo que hoje não está no horizonte político. Sem isso, as metas se tornam pouco críveis e aumentam a incerteza econômica.

O efeito desse descompasso já é conhecido. Quando o mercado não confia nas contas públicas, juros tendem a subir, investimentos são adiados e o crescimento perde força. Na ponta, isso significa crédito mais caro, pressão sobre preços e menos oportunidades.

No fim, o alerta dos economistas é direto: sem um plano consistente para cumprir as metas do PLDO, o otimismo do governo corre o risco de ficar restrito ao papel. E, como costuma acontecer em momentos de desequilíbrio fiscal, a conta que não fecha em Brasília acaba sendo paga pelo cidadão.

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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
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