Impostos elevados expulsam empresários do Brasil; Paraguai vira destino preferido

Jefferson Lemos
Foto - IA

Recorde de brasileiros buscando residência no país vizinho expõe fuga de investimentos e acende alerta sobre perda de competitividade e insegurança tributária no Brasil

O fluxo migratório na América do Sul mudou de perfil — e de direção. Cada vez mais, empresários, investidores e famílias de classe média cruzam a fronteira rumo ao Paraguai em busca de um ambiente mais previsível para viver e empreender. O movimento, que já vinha crescendo em 2025, ganhou força em 2026 e passou a ser tratado por analistas como um “êxodo econômico silencioso”, impulsionado por impostos mais baixos e menor burocracia.

Dados da Direção Nacional de Migrações do Paraguai mostram a dimensão do fenômeno: só em 2025, 23.526 brasileiros solicitaram residência no país, liderando com folga o ranking de estrangeiros. Ao todo, foram mais de 38 mil pedidos no período, um recorde histórico. A comunidade brasileira já ultrapassa 263 mil pessoas, consolidando o Paraguai como principal destino regional dessa migração.

O principal motor desse deslocamento é econômico. Enquanto o sistema brasileiro é frequentemente apontado como complexo e oneroso, o Paraguai aposta em simplicidade e estabilidade. O modelo conhecido como “Triplo 10” resume essa lógica: 10% de imposto de renda, 10% sobre empresas e 10% sobre consumo, além de regimes como a Lei de Maquila, que tributa em cerca de 1% empresas voltadas à exportação. Na prática, a diferença de carga tributária se traduz em maior margem e previsibilidade para quem empreende.

A diferença no bolso

O chamado “Triplo 10” paraguaio — 10% de imposto de renda, 10% sobre empresas e 10% de IVA — é o grande atrativo. A comparação direta com o Brasil evidencia o contraste:

  • Pessoa Física: até 27,5% no Brasil contra 10% no Paraguai.
  • Pessoa Jurídica: até 34% no Brasil contra 10% no Paraguai.
  • Consumo: média de 28% no Brasil contra 10% no Paraguai.
  • Indústrias (Lei de Maquila): taxa simbólica de 1% para exportação, sem equivalente no Brasil.

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, tem defendido abertamente essa estratégia. “Queremos ser o país mais competitivo da região para investir, com regras claras e estabilidade”, afirmou em eventos com investidores. Segundo ele, a política fiscal enxuta e a segurança jurídica são pilares para atrair capital — inclusive brasileiro.

Do lado técnico, o diagnóstico é semelhante. Para o economista Samuel Pessoa, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), o fenômeno reflete uma busca por previsibilidade. “O empresário toma decisão olhando risco. Quando há instabilidade tributária e regulatória, ele naturalmente procura ambientes mais estáveis”, explica. Já o tributarista Bernard Appy reconhece que o sistema atual ainda é um entrave: “O modelo brasileiro é extremamente complexo e gera insegurança jurídica, o que afeta diretamente o ambiente de negócios”.

O avanço desse movimento, porém, acende um alerta no Brasil. Para especialistas, a saída de empreendedores não é apenas uma decisão individual, mas um sintoma estrutural. “Quando o empresário sai, ele leva investimento, emprego e arrecadação junto”, resume Samuel Pessoa.

Enquanto reformas tentam avançar, o “voto com os pés” segue redesenhando o mapa econômico da região — com o Paraguai se firmando como destino de quem busca eficiência, simplicidade e segurança para crescer.

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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
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