A política brasileira voltou a oferecer um daqueles enredos clássicos de conveniência e memória curta. O pré-candidato à Presidência pelo PSD, Ronaldo Caiado, agora trata o presidente nacional do partido, Gilberto Kassab, como peça-chave para seu projeto ao Planalto — um contraste gritante com o passado de ataques duros entre os dois.
Durante agenda em Guaratinguetá (SP), neste domingo (19), Caiado foi direto ao ponto ao defender uma chapa “puro-sangue” com Kassab como vice. Chamou o aliado de “maior articulador” e disse que a composição seria “perfeita” e “fecharia com chave de ouro”. A declaração sinaliza não apenas aproximação, mas uma tentativa de consolidar unidade interna no PSD rumo a 2026.
Nos bastidores, no entanto, a relação está longe de ser um conto de harmonia espontânea. A ascensão de Caiado dentro do partido ocorreu após uma rearrumação forçada: ele deixou o União Brasil sem espaço para disputar a Presidência e encontrou no PSD uma alternativa viável — ainda que inicialmente sem o entusiasmo de Kassab, que preferia o nome de Ratinho Junior.
A desistência do paranaense abriu caminho para o goiano, que acabou alçado à condição de pré-candidato da sigla. O movimento evitou também um embate direto com Flávio Bolsonaro, nome do PL ao Planalto, e reorganizou o tabuleiro político em vários estados.
Do ataque frontal à aliança pragmática
O problema é que o histórico entre Caiado e Kassab pesa — e muito. Em 2015, quando ainda era senador pelo DEM, o hoje pré-candidato não economizou nas palavras ao atacar o então ministro das Cidades do governo Dilma Rousseff.
Na ocasião, Caiado acusou Kassab de cooptar parlamentares e disparou: chamou o dirigente de “cafetão do Palácio do Planalto”, afirmando que ele tratava deputados como “garotas de programa” para fortalecer sua base política.
Além de “cafetão”, Caiado chamou Kassab de “um homem sem posição, de caráter líquido, que se molda ao formato do poder” e afirmou que ele transformava a política em “negociata, corrupção e fraude eleitoral”.
Uma década depois, o mesmo Kassab virou “vice ideal”. E as acusações – postadas em rede social – foram deletadas por Caiado quando se filiou ao PSD.
A guinada escancara o pragmatismo típico das articulações eleitorais — onde antigas rusgas são rapidamente deixadas de lado diante de interesses maiores, como tempo de TV, estrutura partidária e capilaridade política.

Conveniência eleitoral acima de tudo
A aproximação entre Caiado e Kassab é, ao mesmo tempo, estratégica e simbólica. De um lado, um pré-candidato que precisa de musculatura política. Do outro, um cacique em busca de relevância.
Entre ataques do passado e elogios do presente, o roteiro é conhecido: na política, divergências duram até a próxima eleição.
