Maré recebe maior obra de esgotamento sanitário em comunidades do Rio

coisasdapolitica.com
A ETE Alegria integra a infraestrutura de saneamento responsável por tratar diariamente 133 milhões de litros de esgoto antes de seu descarte na Baía de Guanabara (Imprensa/Águas do Rio)

Por décadas, o esgoto produzido por centenas de milhares de moradores da Maré seguiu um caminho conhecido: ruas, valões, rios e, por fim, a Baía de Guanabara. Agora, esse percurso começa a ser interrompido pela maior obra de esgotamento sanitário em andamento em comunidades no estado.

Quando a Águas do Rio, concessionária da Aegea, concluir a obra, no final do próximo ano, 200 mil pessoas deixarão de conviver com riscos à saúde causados pelo esgoto a céu aberto. O impacto positivo do saneamento ultrapassa os limites da Maré. Do outro lado da Linha Vermelha, que margeia o conjunto de 16 favelas, os benefícios também serão sentidos. Cerca de 43 milhões de litros de esgoto deixarão de cair na baía todos os dias.

As intervenções envolvem tanto a construção de um extenso tronco coletor de esgoto de quase cinco quilômetros quanto o trabalho de equipes espalhadas por becos e vielas conectando cada casa a tubulações menores.

“À medida que a concessão se aproxima de completar cinco anos, a obra da Maré mostra como é possível reverter problemas históricos, tanto sociais, de saúde pública, quanto ambientais. O início da coleta e do tratamento de esgoto vai proteger moradores de doenças, fortalecer a economia local e ajudar a devolver ao Rio de Janeiro um patrimônio ambiental que pertence a toda a população”, afirma o gerente executivo da Águas do Rio, Bruno Mendonça.

Recuperação ambiental é resultado do acesso ao saneamento

A transformação em curso na Maré ajuda a contar uma história maior de avanços no no estado do Rio. São quase cinco anos de modernização e expansão do sistema de coleta e tratamento de esgoto, com implantação de redes em cidades no entorno da Baía de Guanabara e na Baixada Fluminense.

“O resultado desse trabalho se mostra também no ecossistema. Hoje, cerca de 134 milhões de litros de esgoto por dia já são coletados e tratados antes que cheguem à Baía de Guanabara. Isso equivale a mais de 50 piscinas olímpicas. Após as obras da Maré, esse número vai subir para 175 milhões”, explica Mendonça.

Os efeitos das melhorias já implementadas são sentidos pela população. A praia do Flamengo voltou a registrar índices históricos de balneabilidade depois que intervenções interromperam a chegada de aproximadamente 22 milhões de litros de água contaminada à enseada todos os dias. Em Paquetá, a universalização do esgotamento sanitário encerrou o despejo que comprometia a qualidade das águas ao redor da ilha.

O trabalho continua em toda a região metropolitana: em São Gonçalo, cerca de 12 milhões de litros de esgoto que antes seguiam para rios, canais e desaguavam na baía já passaram a receber tratamento; enquanto em Mesquita novos sistemas evitam o lançamento de mais de 15 milhões de litros diários nos rios Dona Eugênia e Sarapuí.

Impactos que apontam para prosperidade compartilhada

A recuperação ambiental promove um ciclo virtuoso no estado. Praias mais limpas e corpos hídricos mais saudáveis melhoram a qualidade de vida e os índices de saúde pública, fortalecem atividades ligadas ao turismo, ao comércio e ao lazer, valorizam áreas urbanas e ampliam o potencial econômico de regiões que, durante anos, conviveram com os impactos da poluição. É o que especialistas costumam chamar de “prosperidade compartilhada”.

Há décadas mergulhando na Baía de Guanabara e documentando sua vida marinha, o biólogo Ricardo Gomes, presidente do Instituto Mar Urbano, tornou-se uma das principais referências do país sobre o tema. Para ele, a recuperação da baía passa necessariamente pela ampliação do saneamento em regiões historicamente negligenciadas.

“Não adianta pensar ‘moro no Leblon, tenho saneamento e o resto do mundo não me importa’. Quando você entra no mar, está todo mundo conectado. Promover o saneamento em regiões onde ele ainda não existe é caminhar na direção correta, na direção de uma ‘saúde única azul’.”

Investimento de R$ 19 bilhões até 2033

No estado do Rio de Janeiro, a concessão iniciada em novembro de 2021 ilustra como o novo ambiente regulatório tem viabilizado investimentos de grande escala no saneamento. Desde então, a concessionária do grupo Aegea já investiu R$ 6,3 bilhões em sua área de atuação e prevê alcançar R$ 19 bilhões até 2033. Os recursos são direcionados à expansão dos serviços de água e esgoto e ao cumprimento das metas estabelecidas pelo Marco Legal do Saneamento, que trouxe maior segurança jurídica para investimentos que demandam planejamento e execução ao longo de décadas. A legislação estabeleceu um dos maiores desafios de infraestrutura do país: garantir que, até 2033, 99% da população tenha acesso à água tratada e que 90% dos brasileiros contem com coleta e tratamento de esgoto.

As obras em andamento na Região Metropolitana do Rio são um exemplo da escala de investimentos exigida para tornar esse objetivo viável.

Compartilhe Este Artigo
Para enviar sugestões de pautas ou comunicar algum erro no texto, encaminhe uma mensagem para a nossa equipe pelo e-mail: contato@coisasdapolitica.com
Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *