1 milhão de presos e bandido virando ídolo: a inversão de valores está destruindo o Brasil

Jefferson Lemos
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Divulgado no último dia 23 de julho, o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública trouxe um dado que deveria acender um alerta em todo o país: o Brasil encerrou 2025 com 964.668 pessoas privadas de liberdade e deve alcançar a marca histórica de 1 milhão de presos no ano que vem, com presídios explodindo e o sistema operando no limite absoluto. No entanto, a sensação na porta de casa é de que estamos apenas enxugando gelo. A conta não fecha e o brasileiro sente a facada no bolso e o medo no peito todos os dias. A pergunta que não quer calar na fila do ônibus ou na mesa do bar é simples e direta: por qual motivo, quanto mais a gente prende, mais o crime organizado consegue recrutar a garotada na esquina do bairro?

A resposta dói, incomoda e exige coragem para ser dita sem rodeios. O Brasil não está perdendo a guerra contra a criminalidade apenas por falta de contingente policial, por lentidão nos tribunais e legislação branda e ultrapassada. A verdade nua e crua é que estamos apanhando feio porque nosso valores estão sendo destruídos. Virou uma incômoda rotina nacional transformar assassino em popstar e bandido em referência de estilo de vida. Casos como os de Suzane von Richthofen, Elize Matsunaga e Pedrinho Matador saíram das páginas policiais direto para o centro dos holofotes em séries de grande audiência, podcasts com milhões de visualizações e produções milionárias.

Onde foi parar o respeito e a empatia pelas vítimas e por suas famílias, que choram até hoje? Quando quem destruiu vidas vira pauta de entretenimento e ganha milhões de seguidores como se fosse grande influenciador, a mensagem gravada na cabeça de um jovem é devastadora: no Brasil, a violência dá palco, dá fama e dá engajamento. Esse fenômeno de glamourização não fica restrito às telas dos cinemas ou aos streamings, ele se espalha com força avassaladora na música e nas redes sociais.

Um dos exemplos mais simbólicos dessa engrenagem é o trapper Oruam. Filho de Marcinho VP — um dos líderes históricos do Comando Vermelho —, o artista coleciona milhões de ouvintes, estampa tatuagens do pai e do tio criminosos no peito e ostenta uma rotina de puro luxo, carros importados e joias nas redes. Em apresentações de enorme repercussão, inclusive no Lollapalooza, a narrativa é envelopada como arte e consome a mente dos jovens sem qualquer filtro ou reflexão.

Enquanto nos bailes das comunidades letras de funk exaltam o fuzil para o alto, a vida do crime e o dinheiro fácil, a mulher é frequentemente reduzida à condição de mero objeto nas composições. O mais bizarro nesse cenário é assistir a setores políticos e culturais, que se dizem defensores ferrenhos dos direitos humanos e do combate ao machismo, darem constante “pano de manga” para essas manifestações em nome de uma suposta liberdade de expressão ou identidade cultural. A apologia ao tráfico e a exaltação de facções são toleradas e até aplaudidas quando vêm embaladas como produto cultural popular?

No fim dessa conta, o chefe do tráfico deixa de ser enxergado como o vilão que destrói a própria comunidade e passa a ser o modelo perfeito de sucesso para o adolescente do bairro. Diante desse cenário, é urgente cortar o mal pela raiz e parar com as desculpas esfarrapadas. Atribuir o avanço do crime unicamente à pobreza é uma afronta e uma baita injustiça contra o trabalhador honesto. A imensa maioria da população da periferia acorda de madrugada, pega condução lotada, rala o mês inteiro com dignidade e cria seus filhos com a cabeça erguida e o caráter intacto. Pobreza exige oportunidade, escola de qualidade e serviço público eficiente, mas ter caráter, respeitar as leis e honrar a própria família independem do saldo na conta bancária.

Agilizar o Judiciário, desafogar o sistema carcerário e recuperar quem realmente deseja ser recuperado são obrigações básicas do Estado. Contudo, nenhuma dessas medidas terá o menor efeito se o Brasil não encarar de frente o debate sobre família, educação, responsabilidade individual e o fim imediato da glamourização da criminalidade. Enquanto o país continuar achando elegante ou “bacana” quem anda fora da lei, poderemos construir milhares de novas celas: o crime jamais ficará sem novos recrutas na fila do tráfico.

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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br