A Venezuela que durante o chavismo apostou no controle estatal do petróleo agora precisa justamente de quem foi afastado do negócio para tentar colocar sua principal riqueza novamente de pé.
A Assembleia Nacional venezuelana aprovou nesta terça-feira (1º) o acordo que abre caminho para uma forte participação dos Estados Unidos na exploração de petróleo do país. O motivo é direto: Caracas precisa de dinheiro, tecnologia e investimentos — e não tem recursos suficientes para bancar sozinha a recuperação da indústria.
O próprio presidente da Assembleia, Jorge Rodríguez, reconheceu a situação sem rodeios. Segundo ele, a exploração exige investimentos elevados e novas tecnologias. “É preciso muito dinheiro, que a Venezuela não tem”, afirmou.
Pelo acordo, uma empresa privada apoiada pelos Estados Unidos poderá atuar em 17 campos petrolíferos por até 100 anos. Washington terá acesso garantido a 20% da produção a preço de custo e preferência para comprar os outros 80% em situações de emergência. Os EUA também deverão assumir 35% de participação na empresa responsável pelo projeto.
A ironia é difícil de ignorar.
Durante o governo de Hugo Chávez, a Venezuela ampliou o controle estatal sobre o petróleo, elevou a participação obrigatória da PDVSA nos projetos e nacionalizou ativos de empresas estrangeiras. Empresas americanas como ExxonMobil e ConocoPhillips tiveram ativos expropriados durante esse processo. A mudança de ambiente também afastou investimentos e agravou os problemas de uma indústria que já enfrentava perda de capacidade técnica e de produção.
O resultado foi um dos maiores paradoxos da economia mundial: um país sentado sobre uma das maiores reservas de petróleo do planeta, mas sem dinheiro e capacidade suficiente para explorar toda essa riqueza.
A produção venezuelana despencou ao longo das últimas décadas, enquanto a infraestrutura petrolífera se deteriorou. Estudos sobre o colapso econômico do país apontam a queda da produção de petróleo como um dos fatores centrais da crise venezuelana.
E há outro detalhe que chama atenção: segundo a Casa Branca, boa parte dos campos envolvidos estava anteriormente sob influência de empresas russas e chinesas. Ou seja, o petróleo que não conseguiu ser explorado pela própria Venezuela acabou virando peça de uma disputa entre grandes potências.
No fim das contas, o petróleo continuou lá.
O que faltou foi dinheiro para tirá-lo do chão.
