A União Europeia não acordou numa quinta-feira e resolveu fechar a porteira para a carne brasileira. As novas regras estavam no radar desde 2023 e a data para cumprimento era conhecida: 3 de setembro de 2026.
Tempo, portanto, não faltou.
O Brasil reagiu, negociou, apresentou garantias, criou protocolos e editou novas regras. Mas chegou ao prazo sem conseguir convencer os europeus de que seus controles eram suficientes.
E a comparação com os vizinhos do Mercosul é indigesta.
Argentina, Paraguai e Uruguai também tiveram de cumprir as exigências europeias. Os três, porém, incorporaram mais cedo as restrições às suas legislações nacionais: o Paraguai em 2023; Argentina e Uruguai em 2024.
Resultado?
Os três continuam habilitados a vender para a Europa. O Brasil ficou de fora.
Não é sobre carne contaminada
A UE não disse que a carne brasileira está contaminada ou imprópria para consumo. O problema apontado é a falta de garantias consideradas suficientes sobre o controle do uso de determinados antimicrobianos na produção animal.
A exigência envolve também a capacidade de rastrear a trajetória do animal e comprovar o cumprimento das regras durante toda a cadeia produtiva.
E aí está o calcanhar de Aquiles brasileiro: rastreabilidade e fiscalização.
Brasil demorou a agir?
É aqui que a história fica politicamente desconfortável.
O TCU não encontrou elementos para afirmar que o governo tenha simplesmente se omitido. Houve reuniões, negociações e documentos enviados à União Europeia desde 2023.
Mas o resultado está aí: enquanto os vizinhos anteciparam a adaptação, o Brasil deixou medidas equivalentes para 2026 e chegou à data-limite ainda tentando fechar as brechas apontadas pelos europeus.
Quando chegou a hora da cobrança, Argentina, Paraguai e Uruguai passaram. O Brasil ficou na recuperação.
E a conta pode ser pesada: a suspensão pode atingir até US$ 2 bilhões por ano em exportações de produtos de origem animal. Só a carne bovina movimentou cerca de US$ 1,7 bilhão com a UE em 2025.
Diplomacia também não resolveu
Com o prazo se esgotando, Brasília ainda tentou resolver o impasse no campo político.
No fim de julho, Lula enviou uma carta pessoal à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pedindo a retirada do Brasil da lista de países sujeitos à restrição.
Não adiantou.
Segundo o UOL, até a véspera da entrada em vigor da medida, a carta continuava sem resposta.
A mensagem de Bruxelas foi clara: o problema era técnico e regulatório, não político.
O recado foi reforçado por Olof Gill, porta-voz de Comércio da Comissão Europeia, que afirmou que o Brasil e os demais parceiros tiveram tempo suficiente e todas as informações necessárias para se adaptar às novas regras. Em junho, Gill já havia dito que a UE vinha cobrando as garantias brasileiras havia “três ou quatro anos”.
A pergunta que Brasília precisa responder
Se a regra era conhecida, havia prazo e três países vizinhos conseguiram adaptar suas legislações antes da entrada em vigor…
por que o Brasil chegou ao prazo sem conseguir apresentar as garantias que a Europa considerava suficientes?
Não é preciso dizer que o governo “não fez nada”.
A crítica mais difícil de rebater é outra:
fez, mas não fez a tempo — nem de forma suficiente para evitar o bloqueio.
No comércio internacional, intenção não embarca no navio.
O que embarca é produto com certificado, rastreabilidade e garantia de que as regras foram cumpridas.
E, desta vez, a porteira europeia fechou para o Brasil.
