iFood na mira da China: guerra do delivery pode abrir a porta para a dependência brasileira de Pequim

Jefferson Lemos

O problema não é o cupom. É quem pode estar pagando a conta para conquistar o mercado brasileiro.

A chegada da Keeta, gigante chinesa da Meituan, colocou o iFood diante de uma guerra bilionária. De um lado, descontos agressivos, frete grátis e dinheiro para atrair restaurantes. Do outro, uma empresa dominante tentando defender seu território.

Para o consumidor, parece ótimo: comida mais barata e mais opções.

Mas a pergunta incômoda é outra: o que acontece quando a promoção acabar e um gigante estrangeiro já tiver conquistado consumidores, restaurantes, dados e logística?

O iFood levou a disputa ao Cade, acusando a Keeta de possíveis práticas de preços predatórios e dumping. Na Justiça, também surgiram acusações envolvendo suposta espionagem corporativa e recrutamento de funcionários estratégicos. Tudo ainda precisa ser apurado.

A preocupação é com uma estratégia conhecida no mundo dos negócios: entrar queimando dinheiro, ganhar mercado, esmagar concorrentes e só depois cobrar a conta.

E o prêmio não é pequeno.

Quem domina o delivery não controla apenas pedidos de pizza e hambúrguer. Controla dados de consumo, localização, preços, demanda, restaurantes e uma gigantesca rede logística.

É aí que mora o risco.

Se o mercado ficar concentrado nas mãos de uma plataforma estrangeira, o Brasil pode trocar a concorrência por dependência.

Hoje, o consumidor comemora o frete grátis.

Amanhã, pode descobrir que o preço mais caro não estava no pedido — estava na perda de autonomia.

E talvez o delivery seja apenas o começo.

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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br