Na democracia, cadeira não é trono

Jefferson Lemos
Foto - IA

Com todas as suas mazelas, imperfeições e dissabores, nada substitui a política e os políticos, pelo menos em uma democracia. Combater a política como instituição é, no fundo, combater um dos pilares da própria democracia. É por meio dela que a sociedade organiza seus conflitos, escolhe seus representantes e cria mecanismos para controlar o exercício do poder.

E esse controle é decisivo. Numa democracia, ninguém deveria ser insubstituível no exercício do poder.

Dos políticos de que não gostamos, podemos discordar, enfrentá-los no debate público e, sobretudo, derrotá-los nas urnas. A alternância eleitoral a cada quatro anos impede que o poder se torne permanente e devolve periodicamente ao cidadão a possibilidade de aprovar, rejeitar ou substituir aqueles que foram escolhidos para representá-lo.

Mas essa lógica não deveria se limitar aos cargos eletivos.

O poder público também é exercido por pessoas que não chegam aos seus cargos pelo voto. E é justamente aí que a discussão sobre democracia precisa ir além das eleições: nenhuma posição de poder deveria transformar seu ocupante em alguém que não pode ser substituído.

Quando alguém deixa de depender da avaliação popular e não precisa mais se submeter à vontade da sociedade, enfraquece-se um dos principais mecanismos de controle democrático. Sem a necessidade das urnas e sem a possibilidade de substituição, aumenta o risco de que o ocupante do cargo se sinta acima dos demais, acima das instituições e até acima do bem e do mal.

É aí que se perde um dos princípios mais básicos de qualquer democracia: o poder não pertence a quem o exerce. O poder pertence à sociedade, e quem o ocupa exerce uma função. Porque o problema não é apenas quem ocupa a cadeira. É quando a cadeira parece ter virado trono.

Todo poder exercido por seres humanos precisa, portanto, de limites, fiscalização, controle e também de mecanismos de substituição.

No fim das contas, a questão é simples: cargo público não pode virar propriedade privada. Poder não pode ter dono.

Afinal, nenhum mortal deveria permanecer no Olimpo a ponto de começar a acreditar que é Deus.

Compartilhe Este Artigo
Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *