Com todas as suas mazelas, imperfeições e dissabores, nada substitui a política e os políticos, pelo menos em uma democracia. Combater a política como instituição é, no fundo, combater um dos pilares da própria democracia. É por meio dela que a sociedade organiza seus conflitos, escolhe seus representantes e cria mecanismos para controlar o exercício do poder.
E esse controle é decisivo. Numa democracia, ninguém deveria ser insubstituível no exercício do poder.
Dos políticos de que não gostamos, podemos discordar, enfrentá-los no debate público e, sobretudo, derrotá-los nas urnas. A alternância eleitoral a cada quatro anos impede que o poder se torne permanente e devolve periodicamente ao cidadão a possibilidade de aprovar, rejeitar ou substituir aqueles que foram escolhidos para representá-lo.
Mas essa lógica não deveria se limitar aos cargos eletivos.
O poder público também é exercido por pessoas que não chegam aos seus cargos pelo voto. E é justamente aí que a discussão sobre democracia precisa ir além das eleições: nenhuma posição de poder deveria transformar seu ocupante em alguém que não pode ser substituído.
Quando alguém deixa de depender da avaliação popular e não precisa mais se submeter à vontade da sociedade, enfraquece-se um dos principais mecanismos de controle democrático. Sem a necessidade das urnas e sem a possibilidade de substituição, aumenta o risco de que o ocupante do cargo se sinta acima dos demais, acima das instituições e até acima do bem e do mal.
É aí que se perde um dos princípios mais básicos de qualquer democracia: o poder não pertence a quem o exerce. O poder pertence à sociedade, e quem o ocupa exerce uma função. Porque o problema não é apenas quem ocupa a cadeira. É quando a cadeira parece ter virado trono.
Todo poder exercido por seres humanos precisa, portanto, de limites, fiscalização, controle e também de mecanismos de substituição.
No fim das contas, a questão é simples: cargo público não pode virar propriedade privada. Poder não pode ter dono.
Afinal, nenhum mortal deveria permanecer no Olimpo a ponto de começar a acreditar que é Deus.
