De ‘Musa da Democracia’ ao legado do caos: Como Angela Merkel levou a Alemanha à sua maior crise em décadas

Jefferson Lemos
Foto - Arquivo/EBC

Por anos, Angela Merkel foi vendida pela imprensa mundial como a bússola moral do Ocidente, a “musa da democracia” e a estrategista pragmática que mantinha a Europa nos trilhos. Bastou o tempo passar para a conta chegar. Hoje, o cenário nas ruas alemãs é de ressaca histórica: o modelo de gestão que parecia infalível ruiu, deixando para a população um legado de inflação, serviços públicos estrangulados e um país geopoliticamente vulnerável.

Como primeira-ministra, ela calculou mal a própria estratégia para se manter no poder, Merkel abraçou o populismo adotando pautas históricas da esquerda e dos Verdes, mas sem medir as consequências estruturais de longo prazo para o país, que puseram fim à estabilidade alemã.

A contradição mais emblemática dessa era repousa sobre a matriz energética. Em 2011, em uma manobra claramente populista após a tragédia de Fukushima, Merkel decretou o fim da energia nuclear na Alemanha. A justificativa era a segurança. Contudo, ignorou-se o fato elementar de que o Japão lida com terremotos e tsunamis constantes — um cenário geológico que nada tem a ver com a estabilidade do solo europeu.

O resultado dessa escolha foi um desastre ambiental e econômico. Sob o discurso de uma “transição verde”, a Alemanha desligou reatores de emissão zero de carbono para se pendurar no gás russo e voltar a queimar carvão. Trocou-se a independência tecnológica por combustíveis fósseis importados de um regime autoritário. Quando a geopolítica cobrou a conta, o gás cortado por Moscou transformou-se em faturas extorsivas de luz e aquecimento, pesado custo de vida e ameaça real de desindustrialização para o cidadão comum. 

Como se não bastasse, hoje a Comissão Europeia considera a energia nuclear uma das fontes de menor emissão de gases de efeito estufa e voltou a incluí-la entre as alternativas estratégicas para a descarbonização do continente.

E não para por aí. Merkel, com sua política de “portas abertas” de 2015 atropelou o planejamento do Estado. A decisão de acolher mais de um milhão de refugiados sobrecarregou o país. O reflexo na ponta foi imediato: falta de vagas em escolas e hospitais, disparada nos preços dos aluguéis, forte pressão fiscal e um aumento visível na polarização social e nas preocupações com a segurança pública. Hoje, a Alemanha colhe os frutos de escolhas que sacrificaram a segurança energética e a coesão social em nome da retórica política.

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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
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