Para garantir que nenhum imposto fique para trás, o governo federal instalou totens de biometria que leem as veias da palma da mão na Ponte Internacional da Amizade, na fronteira com o Paraguai. A tecnologia da Receita Federal promete digitalizar a fiscalização, mas a medida mal começou e já acendeu uma polêmica na região: moradores, estudantes e trabalhadores locais acusam o sistema de vigilância excessiva e quebra de privacidade, comparando o cerco ao monitoramento em massa realizado pelo governo chinês. Só na última quinta-feira (1º), primeiro dia de testes do novo equipamento, 3 mil pessoas foram cadastradas ao cruzar a ponte.
O discurso oficial aposta na segurança aduaneira, mas, nas redes sociais, a polêmica já ganhou proporções muito maiores. A revolta vem principalmente de quem não tem nada a ver com o comércio de mercadorias e atravessa a fronteira de mãos vazias. São milhares de brasileiros que cruzam a Ponte da Amizade todos os dias para trabalhar ou estudar no Paraguai, incluindo uma enorme comunidade de estudantes de medicina.
O que deveria ser uma rotina normal virou motivo de preocupação. Estudantes e trabalhadores temem que a frequência com que atravessam a fronteira gere alertas automáticos no sistema e provoque abordagens repetitivas por possíveis falsos positivos da inteligência artificial. Na prática, o receio é que a ida diária à universidade ou ao trabalho se transforme em um fichamento permanente, com o Estado monitorando os deslocamentos de quem não cometeu nenhuma irregularidade.
E a preocupação pode aumentar. Com a previsão de ampliar a biometria para motos e carros, cresce o temor de que a fiscalização provoque congestionamentos ainda maiores e transforme a travessia em um gargalo. O que o governo apresenta como modernização da fiscalização pode acabar criando novos transtornos para quem depende da fronteira todos os dias.
O embate entre o reforço da arrecadação, a eficiência da fiscalização e o direito à privacidade e à livre circulação está apenas começando. E, diante da repercussão nas redes sociais, a polêmica promete continuar muito além dos limites da Ponte da Amizade.
