Duas calçadas, dois mundos — e um certo constrangimento no ar. Enquanto o Rio de Janeiro parece apostar no “paisagismo à base de concreto”, Buenos Aires segue numa ideia quase subversiva: deixar árvore… viver. De um lado, sombra e planejamento. Do outro, cimento, calor e aquela surpresa quando a árvore não resiste.
Na Zona Sul carioca, não é falta de aviso. A Associação de Moradores de Laranjeiras (AMAL) e a Associação de Moradores e Amigos de Botafogo (AMAB) vêm denunciando há tempos a cimentação irregular das raízes — prática que sufoca as árvores e aumenta o risco de queda. E o detalhe quase irônico: muita gente ainda faz isso achando que está “cuidando” da calçada.
O alerta já ganhou carimbo oficial. Um relatório liderado pelo vereador Pedro Duarte, na Comissão de Assuntos Urbanos, identificou árvores praticamente “enterradas em pé” em bairros como Flamengo, Leme, Botafogo e Laranjeiras. A prática, segundo o documento, acontece “à revelia do poder público”. A Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima (SMAC), afirma que fiscaliza — e até fiscaliza… depois da denúncia, claro.
Enquanto isso, Buenos Aires não inventou nada mirabolante — só faz o básico com método. A cidade mantém um inventário público com dezenas de milhares de árvores mapeadas individualmente, com espécie, estado e histórico de manejo. A gestão é coordenada pela Ministerio de Espacio Público e Higiene Urbana, que executa contratos de manutenção por zonas, com metas de poda, inspeção e reposição. Há regras claras para as calçadas: a “gola” da árvore precisa ficar livre e permeável, permitindo infiltração de água e troca com o solo — e isso é fiscalizado. Quando uma árvore é removida, a reposição é obrigatória e programada.
No fim, a diferença é simples e um pouco incômoda: em Buenos Aires, o cuidado com o verde é política contínua, com dado, regra e rotina. No Rio, ainda depende de denúncia — e, como de costume, chega depois. Resultado? Uns colhem sombra planejada. Outros, correm atrás do prejuízo… debaixo do sol. O espaço segue aberto para pronunciamento da prefeitura.
