A farsa do ‘fim dos flanelinhas’: por que o app Jaé não muda nada nas ruas do Rio

Jefferson Lemos
Foto - Divulgação/PMRJ

Estreia nesta sexta-feira (17) o Rio Rotativo Digital. Prometido como o “tiro de misericórdia” na máfia dos flanelinhas, o novo sistema da Prefeitura do Rio aposenta os antigos talões de papel e passa a cobrar as vagas de rua exclusivamente pelo aplicativo Jaé. O teste começa no entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas. O discurso oficial é bonito: quem pedir dinheiro na rua comete crime de extorsão e pode rodar em flagrante.

Mas o motorista, calejado que só ele, já está mandando a real nas redes sociais: “Agora a gente vai pagar duas vezes: o aplicativo para não levar multa da prefeitura e o flanelinha para não ter o carro riscado”. E a pergunta que não quer calar é: por que a prefeitura insiste em criar aplicativo quando o verdadeiro problema é a falta de autoridade e de força na calçada?

Se o governo usasse o braço armado e a fiscalização ostensiva para varrer os flanelinhas dos pontos turísticos, das portas de restaurantes e dos grandes eventos, não haveria sequer a necessidade de inventar aplicativo novo. Afinal, o flanelinha só existe porque sabe que a impunidade na calçada é garantida.

A eficácia do Jaé em acabar com a extorsão depende 100% de uma mudança real e agressiva na fiscalização. O plano do município prevê que os guardadores oficiais trabalhem como “verificadores”, limpando o nome da categoria. Mas convenhamos, eles não são policiais. Se um flanelinha clandestino e intimidador chegar dominando o pedaço, quem vai tirar o cara de lá? Um aplicativo de celular? O GPS?

É aí que entra o maior questionamento da população. A prefeitura do Rio criou recentemente a sua divisão de elite armada da Guarda Municipal — a Força Municipal —, que já está nas ruas patrulhando com pistolas 9 mm. Se o município já tem agentes treinados, equipados e com poder de coerção nas mãos, por que não colocar essa força para atuar diretamente no combate implacável aos flanelinhas?

O uso da força legal para combater uma das maiores pragas da cidade é o mínimo que o cidadão que paga impostos espera. Enquanto o foco for apenas transferir a cobrança para o ambiente digital, o carioca vai continuar estacionando com o celular em uma mão para rodar o app, e a nota de vinte reais na outra para acalmar o “dono da rua”.

Resta saber se a partir do dia 17 a prefeitura vai mandar guardas de verdade para proteger o cidadão na Lagoa ou se vai apenas esperar que um aplicativo resolva um problema crônico de segurança pública.

 

  • Jefferson Lemos é jornalista e comentarista político
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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
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