A tecnologia pode ser moderna. Mas ser filmado por um desconhecido sem saber continua sendo invasivo, desrespeitoso e inconveniente — agora com uma câmera praticamente escondida atrás de uma lente de quase R$ 4 mil.
Os óculos inteligentes da Meta parecem um Ray-Ban comum, mas têm câmera, microfone e inteligência artificial. Com um simples comando de voz, o usuário pode fotografar, gravar vídeos e áudios sem sequer pegar o celular.
Para quem usa, praticidade. Para quem está diante da lente, uma invasão de privacidade que pode passar completamente despercebida.
Um estudo da Universidade de Sydney analisou 350 vídeos feitos com óculos inteligentes entre 2023 e 2026. Cerca de 60% foram classificados como potenciais casos de assédio. Mulheres aparecem entre as principais vítimas, filmadas em restaurantes, academias, elevadores, mercados e outros locais.
Em 43% dos casos, a exposição foi além do vídeo: nome, localização e perfis nas redes sociais das vítimas foram identificados pela audiência. Também houve registros focados em partes do corpo e comentários ofensivos.
O detalhe mais preocupante? A luz que deveria avisar que a câmera está gravando é discreta e pode ser ignorada.Pior: adesivos para esconder o LED chegaram a ser vendidos na internet. A Meta afirma ter atualizado o sistema para desligar a câmera quando identifica esse tipo de manipulação.
A reação já ganhou até apelido: “pervert glasses”, ou “óculos de pervertido”. Em Londres, ativistas fizeram campanhas contra o dispositivo. Redes de pubs, cinemas e teatros proibiram o uso em determinados locais. Até cruzeiros passaram a restringir os óculos em áreas como cassinos, spas e banheiros.
E o Congresso entrou na discussão
O problema já chegou à Câmara dos Deputados. O PL 19/2026, do deputado Carlos Zarattini (PT-SP), cria regras específicas para o uso de óculos inteligentes com inteligência artificial e trata justamente de temas como privacidade, proteção de dados, responsabilidade e segurança.
O projeto já foi aprovado na Comissão de Viação e Transportes e, em 12 de agosto, a Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação aprovou a realização de audiência pública para discutir a proposta. Atualmente, o texto aguarda parecer do relator nessa comissão.
Ou seja: enquanto a tecnologia avança para colocar uma câmera no rosto das pessoas, o Congresso corre atrás para tentar colocar algum limite.
Os óculos têm funções úteis, inclusive para pessoas com deficiência visual. O problema não é a tecnologia existir. É transformar outras pessoas em conteúdo sem pedir licença.
Porque uma coisa é registrar a própria vida.
Outra é colocar uma câmera no rosto e fazer da vida dos outros um espetáculo — sem que eles sequer saibam que estão sendo filmados.
