A bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ficou famosa ao apresentar ao mundo uma molécula capaz de regenerar lesões na medula espinhal: a polilaminina. A cientista, em entrevista à TV 247, descreveu a forma da laminina, que lembra uma cruz, e explicou que a polilaminina seria como “várias mãozinhas dadas”, como um terço. A apresentadora, Hildegerd Angel, reforçou: “É a proteína de Deus, está resolvido!”.
Durante a entrevista, Tatiana agradeceu o apoio que teve do Governo do Estado, através da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), vinculada à secretaria. “Auxílio direto para esta pesquisa em lesão medular nós recebemos da Faperj, que é do governo do Estado do Rio. Esse financiamento foi um divisor de águas”.
Derivada da laminina — proteína natural do corpo humano, essencial no desenvolvimento embrionário do sistema nervoso —, a versão sintética criada em laboratório estimula a reconexão de fibras nervosas rompidas. Em casos de paraplegia e tetraplegia, abre a possibilidade de devolver movimentos antes considerados perdidos.
Tetraplégico volta a andar
O estudo, conduzido ao longo de mais de duas décadas com apoio do Governo do Estado através da SECTI, já foi testado em oito pacientes com lesões graves na medula. Seis recuperaram parte dos movimentos e um voltou a andar. A aplicação precisa ocorrer até 72 horas após o trauma, janela terapêutica considerada crucial.
Entre os beneficiados está Bruno Drummond de Freitas, bancário de 30 anos. Ele sofreu um grave acidente de carro que causou lesão cervical completa e deixou-o sem movimentos. “Acordei pós-cirurgia sem conseguir mexer braços, pernas, quadril ou abdômen. Nada respondia”, relata.
“No início, os médicos disseram que eu ficaria em cadeira de rodas para o resto da vida. Depois, falaram que talvez conseguisse andar com muletas. Mas eu nunca perdi a esperança. Um dia, ainda no hospital, mexi o dedão do pé e aquilo foi um choque para todo mundo. A cada semana eu evoluía mais”, relembra Bruno.

Com autorização da família, ele passou a integrar o estudo acadêmico da UFRJ. Duas semanas após a aplicação da polilaminina, conseguiu mover o dedão do pé, sinalizando o início da recuperação motora. Meses depois, Bruno já conseguia andar e hoje, leva uma vida ativa, trabalhando, praticando esportes e fazendo trilhas com amigos.
“Eu fui a segunda pessoa a receber essa medicação. Conheci todo o laboratório da UFRJ e digo com certeza: foi graças a essa pesquisa apoiada pela Faperj que eu voltei a andar. Se não fosse isso, eu estaria em uma cadeira de rodas, sem perspectiva de futuro”, afirma emocionado.

Apesar dos avanços, Tatiana alerta: em lesões crônicas, com meses de evolução, a regeneração é muito mais difícil. O medicamento ainda está em fase experimental e passa por avaliação clínica da Anvisa.
Patente perdida no governo do PT
Mas o entusiasmo científico contrasta com a realidade política. Em 2015 e 2016, cortes orçamentários durante o governo Dilma Rousseff (PT) impediram o pagamento das taxas de manutenção da patente internacional da polilaminina. O Brasil perdeu a proteção e abriu espaço para que empresas estrangeiras explorem a tecnologia sem pagar royalties.
O episódio expõe a distância entre discurso da esquerda e a prática: enquanto se falava em soberania científica, universidades federais enfrentavam estrangulamento financeiro. Pesquisadores lutavam para manter projetos vivos, enquanto a inovação nacional escorria pelo ralo.
Entre o discurso e a prática
Hoje, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece sorridente ao lado de Tatiana, em vídeo divulgado para tentar demonstrar a valorização da ciência. O presidente incentiva a pesquisadora a mandar recado ao ministro da Saúde e transforma o encontro em gesto político. Mas o passado pesa: quando houve a chance de transformar discurso em investimento, a ciência foi deixada sem ar.

A polilaminina é mais que uma molécula revolucionária. É um espelho da política científica brasileira: celebrada no palanque, mas fragilizada no orçamento. A “proteína de Deus” revela tanto o poder da pesquisa nacional quanto a vulnerabilidade de um país que ainda não decidiu se quer ser protagonista ou espectador na corrida pela inovação… Só mesmo com Deus na causa.


