A bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ficou famosa ao apresentar ao mundo uma molécula capaz de regenerar lesões na medula espinhal: a polilaminina. A cientista, em entrevista à TV 247, descreveu a forma da laminina, que lembra uma cruz, e explicou que a polilaminina seria como “várias mãozinhas dadas”, como um terço. A apresentadora, Hildegerd Angel, reforçou: “É a proteína de Deus, está resolvido!”.
Derivada da laminina — proteína natural do corpo humano, essencial no desenvolvimento embrionário do sistema nervoso —, a versão sintética criada em laboratório estimula a reconexão de fibras nervosas rompidas. Em casos de paraplegia e tetraplegia, abre a possibilidade de devolver movimentos antes considerados perdidos.
Resultados experimentais
O estudo, conduzido ao longo de mais de duas décadas, já foi testado em oito pacientes com lesões graves na medula. Seis recuperaram parte dos movimentos e um voltou a andar. A aplicação precisa ocorrer até 72 horas após o trauma, janela terapêutica considerada crucial.
O primeiro brasileiro a receber o tratamento foi o militar Luiz Otávio Santos Nunez, de 19 anos, vítima de um disparo que o deixou tetraplégico. Após ação judicial, conseguiu acesso ao medicamento experimental. Doze dias depois da aplicação, realizada no Hospital Militar de Campo Grande, voltou a mexer a ponta de um dos dedos.
Apesar dos avanços, Tatiana alerta: em lesões crônicas, com meses de evolução, a regeneração é muito mais difícil. O medicamento ainda está em fase experimental e passa por avaliação clínica da Anvisa.
A patente perdida
O entusiasmo científico contrasta com a realidade política. Em 2015 e 2016, cortes orçamentários durante o governo Dilma Rousseff (PT) impediram o pagamento das taxas de manutenção da patente internacional da polilaminina. O Brasil perdeu a proteção e abriu espaço para que empresas estrangeiras explorem a tecnologia sem pagar royalties.
– Resultado imediato: a inovação nacional ficou vulnerável ao mercado externo.
– Resultado simbólico: uma descoberta capaz de colocar o país na vanguarda biomédica foi sufocada pelo corte de gastos com a ciência.
O custo da incoerência
O episódio expõe a distância entre discurso da esquerda e a prática: enquanto se falava em soberania científica, universidades federais enfrentavam estrangulamento financeiro. Pesquisadores lutavam para manter projetos vivos, enquanto a inovação nacional escorria pelo ralo.

O contraste atual
Hoje, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece sorridente ao lado de Tatiana, em vídeo divulgado como prova de valorização da ciência. Incentiva a pesquisadora a mandar recado ao ministro da Saúde e transforma o encontro em gesto político. Mas o passado pesa: quando houve a chance de transformar discurso em investimento, a ciência foi deixada sem ar.
Retrato final
A polilaminina é mais que uma molécula revolucionária. É um espelho da política científica brasileira: celebrada no palanque, mas fragilizada no orçamento. A “proteína de Deus” revela tanto o poder da pesquisa nacional quanto a vulnerabilidade de um país que ainda não decidiu se quer ser protagonista ou espectador na corrida pela inovação… Só mesmo com Deus na causa.


