Por Jefferson Lemos
A experiência que estamos vivendo com a gestão de Ricardo Couto à frente do governo estadual gera um questionamento sobre o modelo de democracia que envolve três poderes.
Até onde ele atende às necessidades e aos anseios populares? Seria uma boa experiência termos Ricardo Couto, pelo menos até 2030, à frente do governo, para que tivéssemos a oportunidade de ver uma gestão sem essas amarras típicas de uma democracia.
Sem ter sido eleito e distante das pressões típicas do jogo político, Couto governa com respaldo de setores da mídia, um discurso técnico de ajuste fiscal e começa ter também apoio popular. Tem caminho livre para cortar gastos, enxugar a máquina e perseguir o déficit zero — em um cenário favorecido, é verdade, pelos royalties do petróleo inflados pela guerra no Oriente Médio.
O contraste chama atenção. Sem precisar negociar com o Legislativo, sem depender de articulações com o Judiciário e longe do modelo que, nas últimas décadas, levou governadores do Rio à prisão — um deles condenado a mais de 400 anos pelo maior caso de corrupção na história do estado —, a gestão expõe uma questão sensível: qual é, afinal, o peso das instituições democráticas na eficiência do Estado?
Em Brasília, a lógica é outra. O presidente Lula divide o poder com partidos, enfrenta pressões por gastos e negocia cada passo com o Congresso. É o funcionamento clássico da democracia: voto, coalizão, concessão e alternância de poder. Mas o caso fluminense, ainda que fora da curva, escancara um dilema: esse modelo entrega resultados ou trava decisões?
Experiências como a da China surgem como contraponto inevitável — um sistema centralizado, sem oposição, capaz de executar projetos com rapidez e visão de longo prazo e que protagonizou o maior ciclo de crescimento das últimas décadas.
Se a engrenagem parece funcionar melhor sem as amarras do sistema democrático, por que não defender mais quatro anos de Ricardo Couto — mesmo sem voto?
- *Jefferson Lemos é jornalista e comentarista político
