Depois de anos defendendo a ciência como bússola da gestão pública e de rotular adversários como “negacionistas”, a Prefeitura do Rio decidiu recorrer novamente a um método que passa longe de qualquer consenso científico: firmou um novo convênio com a Fundação Cacique Cobra Coral, entidade comandada pela médium Adelaide Scritori, que afirma incorporar o espírito do cacique e atuar para reduzir os efeitos de fenômenos climáticos. A parceria, gratuita, foi assinada pela GeoRio e terá validade até 2051.
A decisão veio logo após uma sequência de dias dramáticos para a cidade. Na semana passada, rajadas de vento chegaram a cerca de 105 km/h no Galeão, derrubaram árvores, provocaram destruição e contribuíram para a morte de duas pessoas após o desabamento de um muro em Santa Teresa. Agora, com novos alertas indicando ventos que podem alcançar 110 km/h em partes do estado, a prefeitura resolveu recolocar o “reforço espiritual” em campo. Enquanto meteorologistas fazem previsões com satélites, radares e modelos climáticos, o município aposta também na atuação de uma entidade que diz interferir no clima.
O episódio chama atenção pelo contraste. Em um governo que frequentemente exalta a ciência como referência para políticas públicas, a resposta para enfrentar eventos extremos acabou incluindo uma consultoria baseada em alegações sobrenaturais. Não há comprovação científica de que a Fundação Cacique Cobra Coral consiga alterar fenômenos meteorológicos, embora a entidade acumule décadas de convênios e pedidos de atuação em eventos como réveillons, Olimpíadas e grandes shows.
A ironia é inevitável. Quando a cidade não consegue estar preparada nem para uma chuva forte — aquelas que, ano após ano, alagam ruas, param o trânsito, provocam deslizamentos e deixam bairros inteiros em caos — sobra pouco além de rasgar a tese acadêmica e apelar para o além. Afinal, drenagem, contenção de encostas e infraestrutura custam tempo e planejamento. Invocar um espírito, ao menos, sai de graça.
