BOMBA NO GÁS: nova regra do governo pode levar o crime organizado para dentro da sua cozinha

Jefferson Lemos
Foto - Agência Câmara

Uma proposta em análise na Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) acendeu um alerta grave no país. Estudo da Universidade de São Paulo (USP) aponta que as mudanças podem abrir brechas para a infiltração do crime organizado no mercado de gás de cozinha.

A reforma prevê três alterações centrais: permitir que distribuidoras encham botijões de outras marcas, autorizar o envase fracionado em centrais remotas e substituir a identificação física dos recipientes por sistemas eletrônicos ainda não validados.

Para os pesquisadores, o problema não está em uma medida isolada, mas na combinação delas: mais pontos de operação, menos controle físico e maior dependência de sistemas digitais ampliam vulnerabilidades e dificultam a fiscalização.

Brecha para o crime

Hoje, o modelo brasileiro garante rastreabilidade ao vincular cada botijão a uma empresa responsável. A mudança pode enfraquecer esse controle e abrir espaço para irregularidades.

O alerta ganha ainda mais peso porque o problema já existe. O estudo aponta que o crime organizado já atua na revenda de gás em diferentes regiões do país.

Efeito dominó

Os pesquisadores citam como precedente a Operação Carbono Oculto, que revelou um esquema bilionário no setor de combustíveis líquidos — um modelo que pode ser replicado no GLP caso haja afrouxamento regulatório.

Em entrevista ao Congresso em Foco, o professor Leandro Piquet faz um alerta direto:
“É o pior cenário possível: crime organizado com presença territorial, redução da fiscalização e flexibilização das regras.”

Fiscalização em queda

O cenário se agrava com a fragilidade da própria ANP. A agência sofreu uma redução de 82% no orçamento discricionário entre 2013 e 2025 e chegou a suspender o monitoramento da qualidade dos combustíveis.

Para Piquet, tratar o tema apenas como questão econômica é um erro:
“Não dá para olhar só para esse setor como se fosse simplesmente uma decisão econômica.”

Ele reforça o risco de avanço das organizações criminosas:
“Podemos criar um novo mercado ilícito.”

O que está em jogo

O gás de cozinha é um produto essencial presente em milhões de lares — o que o torna ainda mais atrativo para organizações criminosas.

O alerta final é direto: sem fiscalização robusta e regras bem calibradas, a proposta pode não só falhar em reduzir preços, como também abrir uma nova frente de atuação do crime organizado — dentro da casa dos brasileiros.

 

  • Com informações do Congresso em Foco
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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
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