Governo aposta em crédito e renegociação com foco eleitoral, mas falha em conter endividamento, diz especialista

Jefferson Lemos
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O avanço recorde do endividamento das famílias brasileiras acende um alerta: as medidas adotadas pelo governo para aliviar dívidas podem estar surtindo efeito contrário. Em entrevista ao CNN Money, o pesquisador do Insper, Marcos Mendes, afirmou que as políticas atuais têm “potência apenas eleitoral” e acabam estimulando a inadimplência.

Segundo Mendes, há uma contradição central na estratégia do governo. Ao mesmo tempo em que promove programas de renegociação, amplia o acesso ao crédito barato — inclusive para inscritos no Cadastro Único, microempresas e microempreendedores individuais — incentivando o endividamento. “O governo diz que quer ajudar a negociar dívidas, mas segue estimulando as famílias a se endividarem”, criticou.

Efeitos colaterais das políticas

O economista aponta quatro problemas principais nas medidas adotadas: alto custo fiscal, impacto negativo no crescimento econômico no médio e longo prazo, histórico de baixa eficácia e pressão adicional sobre a política monetária.

Para ele, essas iniciativas criam um ambiente de “aprendizado negativo”. Programas como o Desenrola, por exemplo, podem gerar a percepção de que dívidas futuras também serão perdoadas ou renegociadas com subsídio público, incentivando um comportamento de risco por parte dos consumidores.

Ciclo vicioso da economia

Mendes avalia que o Brasil vive um ciclo persistente de desequilíbrio, sustentado por três fatores: contas públicas frágeis, baixa produtividade e má alocação de recursos em políticas sociais.

Ele destaca que o país destina mais de R$ 400 bilhões a programas sociais, mas com eficiência limitada. Um dos exemplos citados é o Bolsa Família, que, segundo o pesquisador, sofreu distorções após a criação de um valor mínimo por família. A medida teria incentivado divisões artificiais de núcleos familiares para ampliar o acesso ao benefício, resultando em uma explosão de cadastros unipessoais.

Saída exige reformas estruturais

Para romper esse ciclo, Mendes defende uma agenda mais ampla de reformas, incluindo ajuste fiscal, aumento da produtividade e revisão dos programas sociais. Ele também cita a necessidade de abertura econômica e mudanças no mercado de crédito como caminhos para um crescimento mais sustentável.

Papel do governo deve mudar

Na avaliação do economista, a renegociação direta de dívidas não deveria ser uma política pública prioritária. Em vez disso, o governo deveria concentrar esforços em educação financeira, regulação de práticas abusivas e transparência no sistema de crédito.

“O mercado já tem mecanismos para negociar dívidas. O papel do governo é atuar onde faz diferença: regulando melhor e informando a população”, concluiu.

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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
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