Prefeitura do Rio tapa o sol com a peneira e quiosques tapam a areia com puxadinhos

Jefferson Lemos
De Copacabana ao Recreio, multiplicam-se os deques de madeira, platôs cercados e áreas exclusivas (Reprodução/Redes Sociais)

A prefeitura do Rio adora falar em “ordem pública”. Reprime ambulantes, confisca isopores e posa de guardiã da lei. Mas basta olhar para os quiosques da orla para perceber que o discurso não passa de retórica. Enquanto o poder público finge que controla, os puxadinhos avançam sobre a areia, transformando espaço coletivo em camarote privado.

O loteamento da praia

De Copacabana ao Recreio, multiplicam-se os deques de madeira, platôs cercados e áreas exclusivas. O Katukas, no Recreio, cobra R$ 800 para quem quiser se sentar em um sofá durante eventos com música ao vivo. Já o Clássico Beach Club, na Barra, oferece espreguiçadeiras por R$ 350, com direito a vinho. Tudo isso em cima da areia — aquela que deveria ser pública e livre.

Fiscalização de fachada

A prefeitura garante que fiscaliza e notifica. Mas o que se vê é bem diferente: os puxadinhos continuam firmes e fortes, com DJs, consumação mínima e até cobrança de entrada. O Pato com Laranja, na Barra, exige R$ 20 por pulseira para acessar seu deque. O Código de Defesa do Consumidor proíbe a prática, mas quem disse que lei pega na praia?

O incômodo dos moradores

Moradores e turistas reclamam. Música alta, ocupação irregular e preços abusivos transformam a praia em território VIP. “É público, mas acaba se tornando privativo. Isso gera desconforto para todos”, reclama um banhista.

Ministério Público e concessionária: jogo de empurra

O Ministério Público Federal já pediu a demolição de construções irregulares, algumas com até 500 m². A concessionária Orla Rio reconhece que práticas como a cobrança de R$ 800 são ilegais, mas insiste que não é omissa. Enquanto isso, os puxadinhos seguem crescendo, como se fossem dunas artificiais patrocinadas pelo poder público.

A praia virou camarote

No Rio de Janeiro, a “praia democrática” virou praia VIP. Quem não tem R$ 350 para uma espreguiçadeira ou R$ 800 para um sofá acaba confinado ao espaço apertado perto da água. A prefeitura insiste que fiscaliza, mas o que se vê é um espetáculo de puxadinhos, música alta e consumação mínima.

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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
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