Justiça bate o martelo contra a motosserra da prefeitura no Flamengo

Jefferson Lemos
Na véspera do Réveillon, quando o bairro se preparava para celebrar, os moradores foram surpreendidos pelo barulho das motosserras (Reprodução/TV Globo)

Enquanto artistas e ambientalistas preferiram o silêncio constrangedor, a Justiça resolveu gritar. O juiz Wladimir Hungria bateu o martelo e suspendeu imediatamente as obras no terreno do antigo Colégio Bennett, no Flamengo, onde 71 árvores foram derrubadas sem cerimônia e com autorização da prefeitura do Rio para abrir espaço a dois prédios com 350 apartamentos. A decisão liminar impede qualquer novo corte ou alteração até que a prefeitura apresente laudos, licenças e estudos que comprovem o impacto ambiental e patrimonial da obra.

O corte que caiu mal

Na véspera do Réveillon, quando o bairro se preparava para celebrar, os moradores foram surpreendidos pelo barulho das motosserras. Árvores que estava no terreno tombado, segundo decreto municipal de 2014, foram eliminadas como se fossem obstáculos descartáveis. Para completar o pacote de “modernização”, parte do gradil histórico também foi removida.

Prefeitura e construtora: tudo dentro da lei (segundo eles)

A prefeitura do Rio insiste que o licenciamento cumpre todas as normas ambientais, urbanísticas e de proteção ao patrimônio histórico. A Newview Incorporadora, responsável pelo empreendimento, repete o mantra: todas as licenças estão em ordem, tudo feito dentro da legalidade. O problema? O processo não apresenta autorização do Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Cultural, exigência clara do decreto assinado pelo próprio prefeito Eduardo Paes.

Moradores não engoliram

Indignados, os moradores entraram com ação civil pública contra a intervenção. Eles denunciam que o licenciamento sequer mencionou o gradil tombado, ignorando o valor arquitetônico e cultural do conjunto. Para tentar compensar o estrago, a prefeitura determinou que a construtora plante 632 mudas. Uma matemática curiosa: corta-se 71 árvores centenárias e promete-se centenas de mudinhas que levarão décadas para chegar perto da sombra perdida e sabe-se lá onde.

No palco carioca, a Justiça não se fez de surda: suspendeu as obras que deixam moradores sem sombra, sem gradil e sem memória.

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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
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