O palanque ao lado de Eduardo Paes (PSD) virou o estopim de uma guerra interna no PSOL do Rio. Um dos deputados mais atuantes e de maior projeção da legenda, Yuri Moura rompeu publicamente com a direção do partido e acusou a ala majoritária de tentar enfraquecer sua candidatura à reeleição.
Em vídeo publicado nas redes sociais, Yuri afirma que perdeu 30% do tempo de propaganda eleitoral na televisão e que também houve tentativa de retirar recursos de sua campanha.
“Estou sendo perseguido pelo PSOL do Rio de Janeiro”, disparou o deputado. Ele apresentou recurso à direção nacional do Psol nesta quinta-feira (13) para tentar reverter a decisão do diretório estadual do partido no Rio de Janeiro.
O episódio que detonou a crise ocorreu em 31 de julho, em Paraíba do Sul. Durante um evento de filiação ao PSD, Yuri subiu ao palco ao lado de Paes, do deputado federal Pedro Paulo e de outras lideranças do partido. O problema: o PSOL tem candidatura própria ao governo do Rio, com William Siri.
Yuri, porém, garante que não houve traição. Segundo ele, sua participação no evento foi um convite do prefeito Canelinha e do vereador Léo Corrêa e fazia parte de uma articulação para aproximar lideranças do interior da campanha do presidente Lula.
“Não pedi voto para nenhum governador e sequer cometi infidelidade partidária”, afirmou.
Deputado diz que querem tirar espaço de sua campanha
A partir daí, a acusação ficou ainda mais pesada. Yuri afirma que a direção do PSOL tentou atingir diretamente sua campanha.
“Tentaram tirar meu fundo eleitoral, acho que vão continuar tentando, mas conseguiram tirar 30% do meu tempo de televisão”, disse.
Na avaliação do deputado, a redução teria como objetivo abrir espaço para outros candidatos da chapa proporcional.
“Eu sei que o esquerdismo e a ala majoritária do partido querem me diminuir para que seus candidatos tenham mais chance de disputa na nossa chapa”, acusou.
A reclamação ganha peso porque Yuri é um dos nomes mais ativos da bancada do PSOL e construiu sua atuação política justamente com forte presença no interior do estado e uma postura que busca dialogar para além dos grupos tradicionais da esquerda.
Até Lula entrou na briga
Yuri também colocou em xeque o comportamento do próprio PSOL na eleição presidencial.
“Eu não sei se o PSOL vai fazer campanha para o Lula”, afirmou.
Em outro trecho, acusou setores da legenda de tentar “esconder o Lula” e voltou a defender uma atuação política mais próxima das lideranças do interior.
Eleito deputado estadual em 2022 e candidato a prefeito de Petrópolis em 2024, Yuri se apresenta como representante de uma “esquerda popular” e vem fazendo críticas ao que considera posições mais radicais dentro do partido.
O que antes era uma disputa de bastidores agora virou confronto aberto. E o racha coloca o PSOL diante de uma situação incômoda: um de seus deputados mais atuantes acusa a própria direção partidária de tentar reduzir seu espaço político.
Yuri encerrou o vídeo com uma provocação direta aos dirigentes da legenda:
“E aí, quem for defender a democracia também será punido? Fica a pergunta pro PSOL ou pra quem acha que é dono dele.” O PSOL não se pronunciou sobre o caso. O espaço segue aberto para o posicionamento do partido.
O que diz o partido sobre o caso?
*NOTA OFICIAL DO PSOL RJ*
_Coerência política e compromisso com o futuro do Brasil e do Rio de Janeiro_
O PSOL RJ vem a público reafirmar os critérios políticos e programáticos que orientam sua atuação em todo o estado. O partido integra a base de apoio à reeleição do presidente Lula por compreender o papel decisivo dessa disputa na consolidação de um país democrático e popular. Contudo, compor essa frente não significa se confundir com todas as forças que ali circulam, tampouco legitimar articulações com a direita tradicional.
A presença recente do deputado Yuri Moura no palanque de Júlio Canelinha, candidato a deputado federal pelo PSD e antigo aliado de Rodrigo Bacellar, ao lado de Eduardo Paes e Pedro Paulo, evidencia uma postura reincidente de aproximação com a direita fluminense e prejudica a eleição de Benedita da Silva. O PSD tem como candidato à presidência o latifundiário Ronaldo Caiado.
A trajetória de Canelinha, com passagens pelo governo Temer e pela gestão Cláudio Castro, é incompatível com a transformação social que defendemos. Desnecessário discorrer sobre Paes e Pedro Paulo.
Nossa tarefa histórica é derrotar a extrema direita e construir um Rio de Janeiro e um Brasil mais justos, soberanos e voltados para a classe trabalhadora. Por isso, o PSOL não faz acenos à direita em nenhuma região onde constrói suas bases, pois não se constrói um partido de esquerda no interior confraternizando com oligarquias locais, prática desrespeitosa com tantos militantes que fazem esse esforço sem abrir mão de princípios e posições.
A redução no tempo de propaganda eleitoral do parlamentar é uma resposta direta a essas condutas.
O PSOL vai, sim, subir no palanque de Lula. William Siri foi o único candidato, que no debate da Band, defendeu o voto no Presidente Lula. Estamos construindo sua campanha e temos como prioridade reeleger Lula presidente do Brasil, mas não estaremos abraçados a nenhuma figura da direita nesse espaço.
Entramos no processo eleitoral com altivez e projeto próprio: sustentamos a candidatura de William Siri ao Governo do Estado, a defesa histórica de eleger duas mulheres de esquerda ao Senado Federal, Mônica Benício e Benedita da Silva, e, prioritariamente, a reeleição do presidente Lula.
Seguimos focados no fortalecimento das bancadas estadual e federal e no apoio a candidaturas coerentes com nossas diretrizes. Com respeito à militância que constrói o partido no dia a dia, o PSOL reafirma seu lugar como uma esquerda consequente, firme e verdadeiramente ao lado do povo fluminense.
Rio de Janeiro, 13 de agosto de 2026
Diretório Estadual PSOL RJ
