JUMENTO BRASILEIRO NO PRATO CHINÊS: Congresso se mobiliza para impedir que animal vire comida e remédio na Ásia

Jefferson Lemos

Uma movimentação decisiva em Brasília quer colocar fim à rota comercial que está dizimando o maior símbolo do Nordeste [1]. Na Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado, avançou a SUG 9/2025 — relatada por Fabiano Contarato e lida por Damares Alves [1] —, que vira projeto de lei para proibir o abate e a exportação de jumentos [1]. Na Câmara, cientistas e ativistas pressionam pelo PL 2387/22, do deputado Ney Leprevost com defesa de Célio Studart, unindo o Congresso em um cerco contra a exploração predatória da espécie.

O alvo central dessa caçada internacional é o couro do animal, despachado para indústrias asiáticas onde é fervido para extrair o colágeno que dá origem ao Ejiao, gelatina medicinal vendida a preços astronômicos nas farmácias chinesas como tônico antienvelhecimento. Para lucrar mais, a carne vira um subproduto inteiramente congelado e enviado para a Ásia. Recentemente, o biólogo Richard Rasmussen publicou em suas redes exemplos desses pratos populares na China, onde a proteína abastece o cotidiano das massas em espetinhos de rua e no tradicional Lurou Huoshao (hambúrguer de jumento barato vendido em lanchonetes de fast-food).

Embora consumida em restaurantes simples, a carne é muito valorizada pelo sabor magro e macio, fazendo jus ao famoso provérbio chinês: “No céu há carne de dragão; na terra há carne de jumento”. Contudo, essa demanda gerou uma crise catastrófica no Brasil: por ser um modelo puramente extrativista e sem fazendas de reprodução, a população de jumentos despencou impressionantes 94% desde a década de 1990. Especialistas alertam que, se o fluxo logístico em direção à China não parar, o bicho desaparecerá do mapa brasileiro até 2030.

O freio legislativo avança pelas comissões sob os alertas de cautela do senador Styvenson Valentim quanto aos impactos financeiros no setor de exportação [1]. No entanto, a Frente Nacional de Defesa dos Jumentos e a sociedade civil reforçam que restam apenas seis de cada 100 jumentos que caminhavam pelo semiárido há trinta anos. A corrida contra o tempo agora é política para evitar o apagamento ecológico e histórico da espécie.

O animal que por séculos resistiu à severidade da seca e carregou o progresso do interior do país agora depende diretamente de uma canetada final em Brasília para não virar apenas uma lembrança nas páginas da história. A pressão popular nas redes sociais tem sido o principal motor para manter o projeto vivo e urgente na pauta dos parlamentares.

Compartilhe Este Artigo
Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *