O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) resolveu ir direto ao chefe: ligou para Donald Trump, pediu a retomada das negociações sobre o tarifaço e defendeu que os dois governos mantenham um canal direto de diálogo, sem intermediários como o secretário de Estado americano Marco Rubio. Tudo isso enquanto, no discurso público, mantém o tom de enfrentamento e fala em soberania nacional.
Só que a estratégia tem dois obstáculos. Rubio vem ganhando cada vez mais espaço na condução da política americana para a América Latina, e Trump dificilmente fará uma grande concessão ao governo brasileiro antes das eleições de outubro. Afinal, por que fechar um acordo agora sem saber quem estará no poder daqui a poucas semanas? Se houver algum alívio nas tarifas, a tendência é que ele venha por razões econômicas e pelo interesse do próprio mercado americano — e não como resultado da diplomacia de Lula.
A cena chamou a atenção do Financial Times. Em análise publicada neste fim de semana, o jornal britânico descreveu Trump como um “aliado improvável” de Lula na queda de braço com Rubio. E levantou uma hipótese explosiva: segundo o FT, há pessoas em Washington que avaliam que Lula estaria alimentando o conflito com o secretário americano porque uma reação nacionalista contra os Estados Unidos poderia ajudá-lo eleitoralmente contra Flávio Bolsonaro na disputa presidencial de outubro.
Tarifaço não é simplesmente ‘trabalho escravo no Brasil’
Outro ponto que precisa ser esclarecido é a explicação dada por Lula para as tarifas.
O presidente afirmou que as justificativas americanas seriam infundadas e citou, entre outros pontos, o desmatamento, o Pix, o etanol e o trabalho forçado.
Mas os Estados Unidos não estão simplesmente dizendo que o Brasil tem trabalho escravo.
A discussão americana é outra: envolve a comercialização de mercadorias produzidas em países que utilizam mão de obra em condições análogas à escravidão ou trabalho forçado e que acabam entrando nas cadeias de comércio.
No meio da disputa política, essa diferença acabou ficando em segundo plano.
Soberania no discurso, Trump no telefone
No fim das contas, a fotografia da crise é curiosa.
Lula sobe ao palanque para falar em soberania, resistência e enfrentamento aos Estados Unidos. Mas, quando o tarifaço pesa sobre a economia brasileira, pega o telefone e procura Trump para tentar destravar a negociação.
E Trump atende.
O presidente americano, porém, não parece ter pressa para entregar uma vitória a Lula às vésperas da eleição brasileira.
Para Lula, a disputa com os Estados Unidos pode render dividendos eleitorais e ajudar a alimentar o discurso nacionalista contra Flávio Bolsonaro.
Para Trump, pode ser simplesmente mais uma negociação comercial — com a eleição brasileira no meio do caminho.
E é justamente aí que está a aposta mais arriscada de Lula: transformar a briga com Washington em arma eleitoral sem perder, na prática, o acesso ao próprio Trump — enquanto Rubio ganha cada vez mais espaço dentro do governo americano.
