Por Fernando Mesquita Fernandes*
Há metáforas que explicam uma crise. Outras revelam apenas o olhar de quem as usa. Quando o Rio de Janeiro foi chamado de Gotham City diante do Supremo Tribunal Federal, algo estranho aconteceu. Não foi exagero retórico. Foi a transformação de um problema político em ficção moral.
O problema de chamar uma cidade de Gotham não é estético. É lógico. Declarar que o lugar onde você vive é uma distopia dominada pelo crime é também declarar que todos que nela trabalham são cúmplices. A piada mortal da ironia política soa então menos como denúncia e mais como confissão involuntária: qual será o papel do Ministério Público na cidade do crime? O Tribunal de Justiça, com qual personagem se parece? E o partido que governa a cidade e quer continuar governando?
Na trilogia de filmes sobre o Batman dirigida por Christopher Nolan, inspirada em Dickens, essa lógica tem um nome e um rosto. Harvey Dent acreditava no processo até o dia em que o processo o decepcionou. A partir daí não escolheu a justiça. Escolheu o acaso. A moeda decide porque o tribunal falhou. É esse o raciocínio, e é também o raciocínio de quem declara a falência institucional de um estado inteiro para justificar soluções que o procedimento ordinário não autorizaria.
Bane é mais honesto porque não disfarça. Seu discurso diante de Blackgate é um dos retratos mais precisos do populismo destruidor já escritos para o cinema: “Nós tomamos Gotham dos corruptos! Dos ricos! Dos opressores que mantiveram vocês submissos com mitos de oportunidade! E nós a devolveremos a vocês… o povo.” O que se seguiu foi o Espantalho como juiz, tribunais conduzidos pelo terror e a guilhotina embrulhada em linguagem de libertação. Ao defender que apenas a decisão direta do cidadão seria o remédio legítimo para a crise, ignorando as regras sucessórias vigentes, o argumento mimetiza esse populismo sem perceber. A retórica da devolução ao povo é sempre o prelúdio da suspensão do processo.
Mas foi no púlpito do Supremo que o Coringa, enfim, tomou a palavra. Não o vilão com rosto pintado, mas o operador jurídico que, ao tratar a soberania institucional de um estado como roteiro descartável, vocalizou com precisão a tese central do personagem: “Sua moral, seu código, é uma piada de mau gosto. Caiu ao primeiro sinal de problema”. O Coringa não quer governar. Quer provar que ninguém mais acredita nas regras. E quando um advogado sobe ao mais alto tribunal do país para declarar que as instituições de um estado inteiro colapsaram, está, queira ou não, dando razão a ele.
O Rio real não é Gotham. É uma cidade habitada por magistrados que aplicam leis difíceis em casos impossíveis, por promotores que trabalham sob pressão permanente, por servidores que chegam cedo e saem tarde sem que ninguém filme isso, por policiais que cumprem a lei em condições que a lei não deveria impor a ninguém. São essas pessoas, anônimas e sem máscara, que sustentam o Estado de Direito quando os discursos inflamados já esfriaram. Generalizá-las como figurantes de uma distopia é menos uma crítica ao sistema do que uma agressão às pessoas concretas que o fazem funcionar.
O Rio de Janeiro não precisa de heróis mascarados nem de narrativas de colapso absoluto. Precisa de respeito à sua arquitetura institucional, imperfeita e necessária. A democracia não é entretenimento. E tratá-la como ficção pode render aplausos, mas corrói exatamente aquilo que torna a política possível.
* Fernando Mesquita Fernandes é mestre em Filosofia Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e doutorando em Direito Público pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
