A reação da oposição foi imediata. O senador Flávio Bolsonaro (PL) acusou o governo de se preocupar mais com o ditador iraniano do que com os mortos nas ruas de Teerã. “Mais uma vez Lula está do lado errado”, afirmou, lembrando que o regime já fuzilou mais de 2 mil manifestantes, enquanto o Brasil respondeu com uma “notinha tímida”, recheada da palavra que, segundo ele, o presidente mais aprecia: soberania.
O posicionamento do Itamaraty, considerado tímido, genérico e omisso, limitou-se a expressar “grave preocupação”, pedir “máxima contenção” e lamentar as mortes. Duas semanas após milhares de manifestantes terem sido assassinados pelo Estado iraniano, Lula reforçou o tom burocrático ao publicar nas redes sociais apenas uma nota pedindo “diálogo pacífico”, ignorando o terror imposto por uma das ditaduras mais violentas do mundo.
“Ele defende que a situação se resolva respeitando a soberania do povo iraniano. Mas como o povo pode se defender de uma tirania como essa, quando protesta democraticamente e recebe como resposta um fuzilamento a céu aberto?”, questionou o senador.
Críticas ao silêncio diplomático
Enquanto o mundo condenava o massacre, o Brasil parecia mais preocupado em não desagradar o “amigo” do Planalto. Se a nota do Itamaraty já soava como mera burocracia diplomática, o Instituto Brasil-Israel reforçou a crítica: classificou a posição brasileira como decepcionante e acusou o governo de ter “perdido a oportunidade” de condenar um ataque ilegal que ameaça a estabilidade mundial.
Em outras palavras, enquanto diversos países apontavam o dedo para o regime iraniano, o Brasil preferiu se esconder atrás de frases genéricas e de um apelo à “soberania” — como se essa palavra fosse capaz de transformar fuzilamentos em diálogo.
‘Conversa não resolve’, diz Pazuello
Na Câmara Federal, o deputado General Pazuello (PL-RJ) também criticou a postura de Lula. Para ele, “o Irã só parou quando alguém bateu na mesa”, em referência à intervenção dos Estados Unidos.
“Quando o regime dos aiatolás espalha terror, censura e violência contra o próprio povo, conversa não resolve. Pressão resolve. E foi isso que Donald Trump fez”, declarou.
Reações na Alerj
No Rio de Janeiro, a oposição também se manifestou. O deputado Alexandre Knoploch (PL) afirmou que não há mais espaço no mundo moderno para regimes autocráticos.
“Todo mundo com o mínimo de razoabilidade mental sabe disso, exceto os autocratas ou aqueles que lucram com esses regimes. Resta saber em qual posição o presidente do Brasil se encaixa”, disse.
O deputado Thiago Gagliasso (PL) reforçou: “A postura do governo Lula já era esperada. Trata-se de uma autodefesa do seu método de governo, que recorre às mesmas justificativas para dominar e violar direitos humanos.”
Vozes da Câmara Municipal
Na Câmara Municipal do Rio, o vereador Rafael Satiê (PL) destacou o caso de Erfan Soltani, jovem de 26 anos condenado à execução pública após participar de manifestações contra o regime. Para ele, o silêncio do governo brasileiro diante das mortes caracteriza alinhamento político com a ditadura iraniana.
“Quando o regime mata o próprio povo, a resposta do governo brasileiro é falar em soberania. Isso não é neutralidade, é cumplicidade”, afirmou.
O vereador Poubel (PL) reforçou as críticas:
“Não é de se espantar a forma como o governo federal vem tratando os recentes acontecimentos no Irã. A indiferença de posicionamento de um país como o Brasil contribuiu para aumentar os danos que esse regime de repressão vem causando. Uma crise como essa reverbera no mundo todo e é preciso que o Brasil se posicione com a firmeza e bom senso que o tema merece, respeitando a vontade da população iraniana”.
Já o vereador Fernando Armelau (PL) ressaltou que o Brasil não pode relativizar abusos nem se esconder atrás do discurso de soberania.
“Soberania não é salvo-conduto para o autoritarismo, nem pode significar neutralidade diante da violência estatal. A história exige posicionamento e registra quem se omitiu quando a liberdade foi atacada.”
‘Curto, atrasado e inútil’
Parte da imprensa também criticou. A jornalista Thais Herédia, da CNN Brasil, classificou o comunicado como “curto” e divulgado com “dias de atraso”. Em tom ácido, questionou se há diálogo possível diante de “balas e execuções”. A crítica veio justamente quando se noticiava que um jovem iraniano seria executado por participar dos protestos, somando-se às mais de 3,4 mil mortes já registradas.
Herédia destacou ainda o contraste: enquanto outros países condenaram abertamente o regime dos aiatolás, o Brasil preferiu o caminho do silêncio diplomático — quase como quem envia um emoji de “mãos juntas” em vez de agir.
Diplomacia ou omissão?
O Itamaraty tentou soar firme, mas acabou soando burocrático. Expressou “grave preocupação”, pediu “máxima contenção” e lamentou as mortes. No entanto, ao insistir que tudo deve ser resolvido respeitando a “soberania do povo iraniano”, o comunicado foi interpretado como um gesto de complacência com um regime que reprime seus cidadãos com fuzis.
O dilema brasileiro
Entre a neutralidade diplomática e a acusação de cumplicidade, o Brasil ficou com a pior das imagens: a de quem fala pouco, fala tarde e fala sem impacto. A pergunta que ecoa é inevitável: o Brasil quer ser mediador ou cúmplice?
