Convocado recentemente para reassumir o mandato de deputado estadual, Marcos Muller (União) promete reforçar o trabalho de seus mandatos anteriores, com foco na segurança pública, sem deixar de lado outras questões importantes como a educação e a saúde. Muller é mais um na Casa a criticar a impunidade e a ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, que restringe as ações da polícia nas comunidades.
“Esse cenário tem que mudar. Se não mudar, nós vamos continuar enxugando gelo para não morrer afogado”, avalia o deputado.
Natural de São João de Meriti, Muller também retoma sua luta pela Baixada Fluminense, pressionando por mais recursos e policiamento. Eleito três vezes vereador da cidade, Muller já ocupou o posto de secretário de Segurança do município.
No Parlamento Fluminense, o deputado já ocupou uma cadeira da Casa nas duas últimas legislaturas, quando também priorizou a luta pelo fortalecimento da segurança pública.
Destacam-se, dentre suas Indicações Legislativas, a solicitação da instalação de uma UPA infantil e de mais uma Delegacia Legal, ambas em São João, e a instalação de uma Clínica da Família no bairro de Vilar dos Teles, também no município.
COISAS DA POLÍTICA – Deputado, qual principal pauta o senhor pretende defender neste novo mandato?
MARCOS MULLER – Focaremos no que já é meu segmento, que é a área de segurança. Claro que também iremos pensar e propor iniciativas para outras áreas, como a saúde e a educação, que são muito importantes, mas nosso principal foco será a segurança pública.
COISAS DA POLÍTICA – A segurança pública é um assunto que o senhor vem abordando ao longo dos anos. Como o senhor pretende lutar pelo tema no Parlamento?
MARCOS MULLER – Eu sempre me preocupei muito, por exemplo, com a autonomia dos comandantes e com os insumos, de um modo geral, para o policial, que precisa do que chamamos de ‘serviço meio’, que é a parte interna, como a escala, a alimentação, o bom atendimento etc, para que esse trabalho, sendo bem feito dentro dos batalhões e das delegacias, resulte positivamente no ‘serviço fim’, que são aqueles que estão na ponta da lança, se esforçando, suando, e sangrando. Por isso, queremos priorizar o aumento de viaturas, a autonomia dos delegados e comandantes, e a não influência política nessas autarquias. Iremos ver os números e agir a partir disso.
COISAS DA POLÍTICA – Um dos assuntos em alta nos últimos anos é a ADPF 635. Qual seu posicionamento a respeito da restrição das operações policiais no Rio?
MARCOS MULLER – Se não houver o poder de polícia, fica difícil para qualquer agente que compõe esse segmento fazer o trabalho dele. Essa ADPF, de acordo com o que está preconizado, estabelece que a Polícia tem que avisar sobre as operações às diversas autarquias, como a saúde, as escolas, com a justificativa de diminuir o efeito colateral. Só que isso prejudica, porque as informações chegam de forma antecipada e nós estamos vivendo um momento de guerra. Os números são de guerra, as ações são de guerra, os armamentos são de guerra, as estratégias são de guerra. Então, como é que você vai comunicar que você vai prender alguém?
A realidade é que não vai prender ninguém. Hoje tem vários traficantes que estão em liberdade há 15, 20 anos, aterrorizando nossa cidade, matando, destruindo, roubando, acabando com a economia, com o turismo, e não são presos. Então, nós esperamos que o Supremo reveja essas ações. Esse cenário tem que mudar. Se não mudar, nós vamos continuar enxugando gelo para não morrer afogado.
Confira a entrevista:
COISAS DA POLÍTICA – O senhor é um importante representante da Baixada, área que sofre há anos com a violência e com a criminalidade. O que o senhor mais observa nesse sentido e o que é necessário para mudar essa realidade?
MARCOS MULLER – Eu acredito que tanto o Governo Estadual, como o Federal, têm que ter um olhar diferenciado para a Baixada Fluminense. Eu me lembro, por exemplo, na época da ECO 92, que mudaram o aparelho rádio de comunicação da polícia e deram um aparelho digital, que hoje já está sucumbido, está ultrapassado, mas eu me lembro que alguns desses aparelhos ficaram para as capitais, para a Zona Sul, e o resto, a sucata, foi para a Baixada Fluminense.
Quando tem evento no Rio, policiais de vários batalhões mandam de 10 a 30 policiais e isso é muita coisa. Quando você é um comandante de uma unidade, você é um administrador, um gestor do batalhão e tem suas demandas ali através das estatísticas, aí você ainda tira e manda para a Zona Sul, para o Centro da cidade, mas ninguém faz o contrário, não manda para a Baixada Fluminense. É raro isso acontecer.
Outro exemplo é a criação das UPPs, que são as Unidades de Polícia Pacificadoras. O que é que está pacificado hoje? Vamos ser realistas. Eu quero que me digam, que um especialista me mostre. O policial vai assumir o serviço, fica lá dentro enclausurado, fora que várias UPPs já foram metralhadas. Então, precisamos dar independência para os comandantes, para os delegados, e claro, aumentar o efetivo de forma considerável.
É necessário fazer um estudo de demanda, com estatísticas, para saber qual a real quantidade de policiais necessária para cada unidade, quantas viaturas e como será feito o Regime Adicional de Serviço. Se existir essa parceria entre estados, municípios e Governo Federal, o cenário já irá melhorar muito no quesito segurança para todos os munícipes da Baixada Fluminense.
COISAS DA POLÍTICA – Como o senhor avalia a legislação penal? Também acredita que esteja ultrapassada e que são necessárias punições mais duras contra os crimes?
MARCOS MULLER – A mancha criminal passeia muito. Hoje nós temos a T.I., que é a tecnologia da informação, que serve para o bem, mas também está servindo para o mal. Eles estão usando a rede social para cometer crimes absurdos, e enquanto isso acontece, nada está sendo feito de mudança na Legislação Penal. Eu acho que enquanto não mexer no Código de Processo Penal e na Vara de Execuções Penal, fica complicado. Pergunta a uma mulher, por exemplo, que foi violentada, agredida, mas ficou com vida, como é que está seu psique e pergunta se o tempo que o abusador ficará na prisão é satisfatório comparado ao dano que ele a causou. É claro que não. Muitas vezes, ele sai com um tempo muito curto, vai fazer prestação de serviço, e até passa por aquela vítima. Tem que ter mudança.
A mesma coisa quando tratamos de famílias. Pergunta para uma mãe, para um pai ou alguém responsável pela criança, que criava com carinho, trabalhando para poder dar educação, pagar curso, e essa criança foi viciada pelo tráfico. Sabemos que viciado uma vez um jovem, a família toda fica doente. Pergunta para eles se o tempo que aquele que causou dano em seu filho pegou de prisão é satisfatório. É claro que não. O bandido vai ser solto e fazer a mesma coisa. Então, é preciso ter uma atualização na Legislação Penal, porque o crime está se atualizando a todo momento. O crime está se moldando, está tendo acesso à tecnologia, usando drone para monitorar a polícia, filmadoras nas entradas da comunidade. As táticas são de guerra. A mudança tem que ser urgente. As grandes capitais, principalmente, estão sofrendo.