Em meio a uma conjuntura marcada por tensões institucionais e polarização ideológica, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reacende um debate histórico ao invocar o legado de Getúlio Vargas — não apenas como referência simbólica, mas como modelo de ação política. A escolha não é inocente: para críticos, Lula estaria revivendo, sob nova roupagem, traços autoritários do Estado Novo.
A carta de Vargas e o espelho populista
Durante reunião ministerial nesta semana, Lula leu trechos de uma carta escrita por Vargas em 1950. Nela, o ex-presidente exaltava a confiança no povo e denunciava supostas interferências externas. O gesto, cuidadosamente calculado, reacendeu comparações entre os dois líderes — ambos mestres na retórica populista e na construção de narrativas de soberania nacional.
A evocação de Vargas ocorre em meio à reação brasileira ao tarifaço de 50% imposto pelos Estados Unidos. Lula reforça um discurso de resistência às pressões internacionais, em tom que remete ao nacionalismo econômico varguista — o mesmo que, entre 1937 e 1945, sustentou um regime autoritário que fechou o Congresso, extinguiu partidos e cerceou liberdades civis, sob o pretexto de um falso plano de golpe.
Democracia em xeque: Judiciário versus Parlamento
A crise institucional se aprofunda com acusações de que Lula estaria governando por meio do Judiciário, esvaziando o papel do Parlamento. Em resposta, a oposição ressuscitou a PEC das Prerrogativas, que busca limitar a atuação do Supremo Tribunal Federal sobre parlamentares.
A proposta ganhou tração após episódios de tensão, como a ocupação do plenário por deputados bolsonaristas e a resistência do governo em pautar temas sensíveis ao Legislativo. O embate reacende o debate sobre os limites entre os poderes e o risco de concentração de autoridade.
Política externa sob fogo cruzado
Enquanto se apresenta como defensor da democracia, Lula enfrenta críticas severas por sua política externa. O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, acusou o presidente brasileiro de ser “antissemita declarado” e “apoiador do Hamas”.
A crise diplomática se intensificou após o Brasil se retirar da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA) e apoiar a ação da África do Sul na Corte Internacional de Justiça, que acusa Israel de genocídio em Gaza. A postura brasileira, vista por muitos como alinhamento com regimes como Irã, China, Cuba e Venezuela, remete ao flerte histórico de Vargas com o nazismo e o fascismo europeu.
Durante o Estado Novo, Getúlio negou vistos a judeus que fugiam da Alemanha nazista e deportou Olga Benário — militante comunista e esposa de Luís Carlos Prestes — à Gestapo. Olga foi assassinada em uma câmara de gás, tornando-se símbolo da brutalidade varguista.
O legado que a esquerda prefere esquecer
Apesar da reverência a Vargas nas escolas e universidades, seu passado ditatorial é frequentemente suavizado ou ignorado. A esquerda, que domina boa parte da formação ideológica no país, tende a exaltar os avanços trabalhistas e nacionalistas, omitindo os abusos de poder e a repressão política.
Analistas alertam: ao seguir os passos de Vargas sob o pretexto de promover justiça social, Lula corre o risco de legitimar a ideia perigosa de que uma ditadura pode ser benéfica — desde que tenha boas intenções.
Discursos inflamados, alianças controversas
Em busca de recuperar prestígio popular diante de desafios econômicos e desgaste político, Lula adota uma estratégia de confronto: discursos inflamados, alianças polêmicas e embates com o Legislativo. A evocação de Vargas pode soar como tributo histórico, mas também como sinal de alerta.
Repetir os passos de um ditador, mesmo com objetivos nobres, pode levar o país a um terreno instável. A história, dizem os historiadores, não se repete — mas rima. E no Brasil de 2025, os ecos do Estado Novo voltam a soar com força.
A sociedade é convidada a refletir: estamos diante de um resgate legítimo ou de uma reencenação autoritária?