Pão e circo: como Eduardo Paes utiliza artistas estrangeiros como ‘cabos eleitorais’

Jefferson Lemos

Enquanto o Rio de Janeiro enfrenta problemas crônicos de infraestrutura, segurança e serviços públicos, o prefeito Eduardo Paes (PSD) segue apostando em uma política de espetáculos internacionais para projetar sua imagem, conquistar engajamento nas redes sociais e consolidar apoio popular. Nesta semana, uma postagem feita no perfil oficial da prefeitura sobre o noivado de Taylor Swift foi interpretada como uma pista de que a estrela pop pode ser a próxima atração a se apresentar em Copacabana. Shows gratuitos de estrelas como Madonna e Lady Gaga têm sido promovidos como eventos culturais, mas também funcionam como ferramentas de marketing político — com custos milionários e retorno questionável para a população.

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O palco eleitoral e os custos envolvidos

Apesar da entrada gratuita para o público, os custos operacionais são elevados e a transparência é questionada. A infraestrutura e segurança demandam cerca de R$ 10 milhões por evento, segundo estimativas da Riotur. A logística e montagem de palco giram em torno de R$ 8 milhões. O marketing e divulgação consomem entre R$ 2 e R$ 3 milhões. Quanto ao cachê dos artistas, sequer é divulgado oficialmente, visto que parte seria bancada por patrocinadores privados.

A dimensão dos gastos públicos com os eventos gerou críticas não só no Rio, mas entre políticos fora do Estado. Parlamentares como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Leo Siqueira (Novo-SP) já acusaram Eduardo Paes de priorizar os espetáculos em detrimento das necessidades reais da população, classificando os shows como “populismo disfarçado de cultura” e “campanha eleitoral financiada com dinheiro público”. Siqueira chegou a apresentar números questionando o retorno financeiro alardeado por Paes.

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O retorno real para a cidade

Segundo estudo divulgado pela prefeitura, o Rio projeta arrecadar R$ 1,7 bilhão em impostos relacionados ao turismo e eventos até 2028. Em 2024, foram mais de R$ 400 milhões em ISS ligados ao setor, com crescimento de 13% em relação ao ano anterior. Contudo, a sensação é de que esse retorno não se traduz em melhorias visíveis para a população. No transporte público, houve redução da frota de ônibus e aumento da tarifa sem contrapartida em qualidade. Na saúde e educação, unidades básicas enfrentam falta de médicos e escolas sofrem com manutenção inadequada. Nem o patrimônio público escapa: estátuas foram retiradas por falta de segurança.

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Entre o espetáculo e o abandono

A estratégia de Paes é clara: transformar o Rio em vitrine global, enquanto usa o brilho dos holofotes para ofuscar os problemas reais. Os shows funcionam como cabos eleitorais informais, gerando engajamento nas redes sociais e consolidando sua imagem como gestor moderno e conectado. Mas para o morador da Zona Norte, da Baixada ou do subúrbio, o retorno é invisível. O pão é escasso, e o circo é distante.

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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
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