Enquanto o Aterro do Flamengo celebra seis décadas como símbolo de urbanismo e lazer democrático, a histórica Rua Paissandu, a poucos metros dali, mergulha em abandono — um contraste gritante entre o esplendor do passado e a negligência do presente.

Da rota da realeza ao retrato do descaso
Antigo trajeto da princesa Isabel entre o Palácio Guanabara e a Praia do Flamengo, a Paissandu hoje é marcada por insegurança, sujeira e ausência de políticas públicas. As palmeiras imperiais — plantadas por ordem de Dom Pedro II e ampliadas pelo Conde D’Eu — estão doentes, sem poda adequada, ameaçadas por pragas e confinadas em canteiros cada vez menores.

Raízes de árvores centenárias avançam sobre calçadas de pedras portuguesas, esburacadas em diversos trechos. A Comlurb tem optado por cortar exemplares comprometidos, mas sem replantio, a paisagem histórica se desfaz aos poucos. O asfalto na pista também exibe buracos.

Moradores denunciam abandono
A escassez de lixeiras, a ausência de guardas municipais e a falta de assistência à população em situação de rua transformaram a Paissandu em um território vulnerável. “A rua está esquecida. Falta tudo: segurança, limpeza, cuidado com as árvores, apoio para quem vive nas calçadas. É triste ver um lugar tão bonito e histórico se deteriorando assim”, lamenta uma moradora.

Sem resposta, sem ação
Apesar do programa “Seguir em Frente”, da Secretaria Municipal de Assistência Social, que já acolheu mais de 800 pessoas em outras regiões, moradores afirmam que nenhuma ação concreta chegou à Paissandu.

Urbanistas propõem resgate
Especialistas defendem a revitalização da rua com um plano paisagístico inspirado no modelo que transformou Ipanema — o chamado “verde que vale ouro”. Investimentos em arborização e infraestrutura urbana poderiam devolver à Paissandu o prestígio perdido, melhorar a qualidade de vida e valorizar o entorno.

Contraste que salta aos olhos
Projetado por Lota de Macedo Soares e Burle Marx, o Aterro do Flamengo é hoje um dos maiores parques urbanos do mundo. Seu legado de convivência democrática e beleza paisagística torna ainda mais evidente o abandono da rua vizinha — uma ferida aberta no mapa da Zona Sul carioca.

A reportagem entrou em contato com a Prefeitura do Rio, solicitando posicionamento das seguintes pastas: Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos, Secretaria Municipal de Ordem Pública, Secretaria Municipal de Assistência Social, Fundação Parques e Jardins, Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb) e Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH). O objetivo é obter esclarecimentos sobre possíveis intervenções, cronograma de ações e planos de revitalização para a Rua Paissandu.
A rua pede socorro. E sua história exige resposta.
