Mais de 1,2 mil presos sumiram durante as ‘saidinhas’ no Rio em 2025. Maioria é do CV

Jefferson Lemos
Em 2025, o calendário da liberdade teve cinco datas: Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças e Natal (Reprodução)

Detentos do Rio de Janeiro aproveitaram as famosas “saidinhas” de 2025 para transformar o benefício em passaporte só de ida. Levantamento feito pelo jornal O Globo e informações da Secretaria de Administração Penitenciária revelam que pelo menos 1.2 mil presos simplesmente não voltaram às celas.

E não estamos falando de ladrãozinho de galinha. 65% dos fugitivos são do Comando Vermelho, que, como bom “clube de fidelidade”, oferece abrigo e proteção dentro dos territórios ocupados aos associados que decidem não dar as caras no presídio.

Festa para uns, fuga para outros

A lei garante a saída temporária para quem está no semiaberto, cumpriu parte da pena e apresenta “bom comportamento”. Traduzindo: basta não arrumar confusão na cadeia para ganhar um passe livre.

Em 2025, o calendário da liberdade teve cinco datas: Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças e Natal. Cada uma delas virou uma espécie de “promoção relâmpago” para centenas de presos.

Ranking da fuga — versão facções

– Comando Vermelho: 785
– Terceiro Comando Puro: 202
– Amigos dos Amigos: 86

Ou seja, se fosse campeonato, o CV já teria levantado a taça da “saidinha sem volta”.

Casos de destaque

– Honório de Pereira de Jesus, traficante do Morro do 18, ganhou o benefício por “ótimo comportamento” e desapareceu logo na primeira oportunidade.
– Roger Pereira Moizinho, o Macarrão, apontado como chefão do CV em Minas, também aproveitou o Dia dos Pais para sumir.
– Tiago Vinicius Vieira, o Dourado: especialista em tráfico de armas e drogas, já foi pego pela PF em 2018 enquanto negociava sintéticos. Estava foragido de uma penitenciária de segurança máxima em Campo Grande. Escapou de vez no Natal.
– André Luiz de Almeida, o Nestor do Tuiuti: manda-chuva do morro homônimo, Zona Norte.
– Márcio Aurélio Martinez Martelo, o Bolado da Fallet: chefe em Santa Teresa.
– Sérgio Luiz Rodrigues Ferreira, o Salgueiro ou Problema: gerente da favela da Lagoa, em Magé. O apelido já dispensa explicações.

Estado endurece, mas a legislação alivia

Para evitar as debandadas com as saidinhas, o governador Cláudio Castro sancionou lei aprovada pela Alerj para barrar a liberação de condenados por crimes hediondos e avaliar vínculos com facções.

Mas, como mostram os números, a medida ainda não virou muralha. É que a legislação ultrapassada não permite que a nova medida seja aplicada de forma retroativa, beneficiando quem foi preso antes da lei assinada por Castro entrar em vigor.

É como acreditar em Papai Noel

Ou seja, enquanto o Estado promete “romper o ciclo”, os presos rompem mesmo é o portão da cadeia. No Rio, a “saidinha” virou praticamente programa de fidelidade do crime organizado: sai, não volta, ganha proteção da facção e ainda brinda o Natal em liberdade.

Em resumo: quem acreditou que mais de dois mil presos voltariam voluntariamente para o presídio depois da ceia… também acredita em Coelhinho da Páscoa e Papai Noel.

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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
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