Carnaval sem crueldade: Congresso pode banir penas de animais das fantasias

Jefferson Lemos
Foto - Reprodução

A Câmara dos Deputados deu um passo que pode redefinir o visual — e a ética — do Carnaval brasileiro. A Comissão de Desenvolvimento Econômico aprovou um projeto de lei que proíbe a confecção, venda e uso de fantasias e adereços com penas ou plumas de origem animal em todo o país.

A proposta atinge diretamente uma cadeia global que sustenta o brilho das avenidas, mas também levanta um debate incômodo: o custo invisível por trás do espetáculo.

Bastidores do luxo: dor, importação e escala industrial

Grande parte das penas usadas em fantasias — como as de faisão, pavão e aves do paraíso — é retirada de animais ainda vivos. O método, conhecido como “depenagem a vivo”, provoca dor intensa e sofrimento físico, sendo frequentemente apontado por especialistas e entidades de proteção animal como prática cruel.

Os números dão dimensão do impacto:

– Uma única fantasia pode carregar cerca de 2 mil penas de faisão;
– Pavões, gansos, patos, avestruzes e faisões usados na indústria carnavalesca são criados principalmente na China, Índia e África do Sul;
– O Brasil é o maior consumidor mundial desse mercado;
– Apenas escolas do grupo especial do Rio e de São Paulo importam cerca de 3 toneladas de penas;
– Cada escola utiliza, em média, entre 70 kg e 150 kg de penas por desfile;
Para cada quilo de penas, ao menos dois animais sofrem no processo.

Esses dados reforçam a pressão por mudanças no setor e ajudam a explicar o avanço da proposta no Congresso.

Multas pesadas e exceções

O texto aprovado prevê multas que variam de R$ 5 mil a R$ 1 milhão para quem descumprir a regra. Em caso de reincidência, o valor será dobrado, com acréscimo de 100% a cada nova infração.

A proibição não será absoluta: o uso poderá ser permitido quando houver comprovação de ausência de sofrimento animal na extração, conforme futura regulamentação. Também será autorizado o reaproveitamento de plumas já existentes antes da lei entrar em vigor.

Relator critica ‘lucro sobre sofrimento’

O parecer aprovado é do deputado Helder Salomão (PT-ES), que manteve a essência do projeto original, de autoria do deputado Célio Studart (PSD-CE).

Para o relator, a prática representa uma troca “inaceitável” entre benefício econômico e sofrimento animal. Ele também argumenta que a substituição por materiais sintéticos pode reduzir custos e estimular a indústria nacional, sem comprometer o espetáculo.

Próximos passos

O projeto ainda será analisado por outras comissões da Câmara antes de seguir para votação no plenário. Se aprovado, precisará também do aval do Senado para virar lei.

Caso avance, a medida pode marcar uma virada histórica no Carnaval brasileiro — colocando em xeque tradições e abrindo espaço para um novo modelo, onde luxo e sustentabilidade não precisem caminhar em direções opostas.

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Jefferson Lemos é jornalista e, antes de atuar no site Coisas da Política, trabalhou em veículos como O Fluminense, O Globo e O São Gonçalo. Contato: jeffersonlemos@coisasdapolitica.com.br
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